Bizarrias

Anabela Fino

A re­pro­dução des­cui­dada, di­gamos assim, de in­for­ma­ções di­vul­gadas por agên­cias in­ter­na­ci­o­nais muito dadas a ver o mundo sob o prisma dos in­te­resses dos Es­tados Unidos e do grande ca­pital deu azo, em No­vembro úl­timo, a uma série de no­tí­cias sobre a ale­gada de­cisão do pre­si­dente da Ve­ne­zuela de de­cretar que este ano o Natal na­quele país seria em No­vembro. Um es­cla­re­ci­mento pos­te­rior das au­to­ri­dades ve­ne­zu­e­lanas, in­cluindo da sua em­bai­xada em Por­tugal, sobre a de­tur­pação feita das pa­la­vras de Ni­colás Ma­duro, que se havia re­fe­rido à época na­ta­lícia – com fortes tra­di­ções no país – e não ao Natal, passou pra­ti­ca­mente des­per­ce­bido. Apre­sen­tado como mais uma bi­zarria do pro­cesso bo­li­va­riano e do pre­tenso de­ses­pero de Ma­duro para se con­servar no poder – o que a vi­tória nas elei­ções mu­ni­ci­pais de De­zembro viria a des­mentir sem qual­quer margem para dú­vidas mas com muito menos co­ber­tura me­diá­tica – o caso cons­titui um bom exemplo de como os media do­mi­nantes na so­ci­e­dade dita da in­for­mação não olham a meios para tentar de­sa­cre­ditar e de­ne­grir quem ousa de­fender os in­te­resses do seu povo e do seu país.

O que é cu­rioso, ou talvez não, é que se por acaso Ni­colás Ma­duro ti­vesse to­mado a in­só­lita de­cisão de mudar a data do Natal nem se­quer seria ori­ginal. Com efeito, num país que nem se­quer é da Amé­rica La­tina – forma mais ou menos de­pre­ci­a­tiva com que certos bem pen­santes se re­ferem a países ditos em vias de de­sen­vol­vi­mento – mas sim do muito evo­luído con­ti­nente eu­ropeu, há muito que os go­ver­nantes de­ci­diram que para os tra­ba­lha­dores da ad­mi­nis­tração pú­blica e afins o Natal é todos os meses, razão pela qual o sub­sídio que tra­di­ci­o­nal­mente re­ce­biam em De­zembro passou a ser pago em su­aves, muito su­aves du­o­dé­cimos, que em­bora não che­gando para tapar os bu­racos feitos pelos cortes sa­la­riais e enormes au­mentos de im­postos sempre vão dis­far­çando o des­ca­labro do or­ça­mento fa­mi­liar. Visto noutra pers­pec­tiva, há quem diga que a de­cisão foi mesmo a de acabar com o Natal, mas es­cas­seiam in­for­ma­ções a esse res­peito.

Não consta que sobre o as­sunto tenha ha­vido no­tí­cias na im­prensa in­ter­na­ci­onal. E no en­tanto as ori­gi­na­li­dades desse mesmo país não se ficam por aqui, pois não só tem um Pre­si­dente que atribui à santa da de­voção na­ci­onal um «mi­lagre» ocor­rido a 13 de Maio numa ne­go­ci­ação com cre­dores, como dispõe ainda de uma pa­nó­plia de mi­nis­tros e se­cre­tá­rios de Es­tado que dia sim dia sim ga­rantem a quem os quer ouvir, ou seja, à co­mu­ni­cação so­cial, que está a ocorrer no país um au­tên­tico «mi­lagre eco­nó­mico» e – ma­ra­vilha das ma­ra­vi­lhas – tem um pri­meiro-mi­nistro que em men­sagem à nação de­cretou que agora o ano só tem nove meses, o que de uma as­sen­tada per­mitiu trans­formar 22 mil novos em­pregos (por sinal pre­cá­rios e mal re­mu­ne­rados) em qual­quer coisa como 120 mil novos postos de tra­balho.

Pelo que atrás foi dito, for­çoso se torna con­cluir que ou os media andam con­ve­ni­en­te­mente dis­traídos em re­lação ao que se passa no velho con­ti­nente ou que Ma­duro está verde, muito verde no que toca a bi­zar­rias.



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