Mercado da saudade

Margarida Botelho

«Mercado da saudade» era o nome que se dava há uns anos ao negócio de exportação de produtos emblemáticos nacionais para os portugueses emigrados. Água do Luso, bacalhau, cerveja nacional, mais a Bola e a Maria, eram – e são – aguardados com entusiasmo por comunidades emigrantes portuguesas um pouco por todo o mundo.

Se faltasse alguma prova das enormes proporções que a emigração tomou nos últimos anos, com dezenas de milhares de jovens e famílias inteiras a procurarem lá fora o emprego e a dignidade que cá lhes é roubada, bastava estar atento à comunicação social dominante. Se há 40 ou 50 anos ««o salto» e a carta de chamada eram o início da emigração, hoje há toda uma linha argumentativa construída para promover a ida para fora como a melhor solução. Ou a única. Nada de espantar num país em que o primeiro-ministro aponta a porta da rua como saída profissional para a juventude portuguesa.

Se há anos a emigração era apresentada como opção de gente pobre, hoje há um enorme esforço para disfarçar que é isso mesmo que continua a acontecer. Cavaco e Passos reuniram em Cascais com 30 «portugueses influentes» no estrangeiro, banqueiros e administradores de grandes empresas, para debater a «mobilidade inteligente». A rádio pública tem há anos no ar um programa diário de entrevistas com emigrantes, todos escolhidos a dedo para falarem da enorme facilidade de adaptação lá fora e das grandes saudades que se sentem… da gastronomia portuguesa. A televisão pública também emite de vez em quando roteiros turísticos guiados por orgulhosos emigrantes de sucesso.

E no entanto, como nem tudo são rosas, neste Natal já foi difícil às televisões omitirem as reportagens sobre famílias que o desemprego separa, empurrando pais, filhos, casais, para uma vida de saudades e de distância. A SIC Notícias até aproveitou a quadra para fazer um clip de auto-promoção com base no novo single de Pedro Abrunhosa, «Para os braços da minha mãe», uma canção actualíssima sobre um jovem emigrado. E assim se modernizou o velhinho «mercado da saudade».  



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