Venezuela, ano 15

Luís Carapinha

As grandes batalhas estão ainda pela frente

A revolução bolivariana está prestes a completar 15 anos. Foi a 2 de Fevereiro de 1999 que Hugo Chávez tomou posse pela primeira vez, assumindo as rédeas do poder na Venezuela. Pequeno trecho histórico em que foi já percorrido um longo caminho nos trilhos do resgate da independência e construção da nova Venezuelana popular e libertadora. Garantir a trajectória vitoriosa da revolução bolivariana no decorrer deste período acidentado – em que o mundo é confrontado com a violenta ofensiva exploradora do capitalismo em crise profunda – foi possível graças, em última análise, à participação de milhões de venezuelanos oriundos das camadas populares e trabalhadoras no combate político e social. Este é, precisamente, um dos grandes méritos históricos de Chávez e do movimento bolivariano que liderou: ter contribuído, como refere o presidente Nicolás Maduro, para a incorporação «na política (…) de milhões de venezuelanos que estavam excluídos numa espécie de apartheid social» (Telesur, 23.12.13). O seu desaparecimento prematuro em Março de 2013 foi visto pela direita local como o prenúncio do toque de finados da revolução. O imperialismo preparou de antemão o golpe concertado que foi desferido, antes de mais, no plano da guerra económica e mediática. Enganaram-se, contudo. Mediram mal a correlação de forças. As manobras conspiradoras e desestabilizadoras da direita acólita voltaram a estatelar-se. Não desistirão porém dos seus propósitos subversivos e tentativas para inviabilizar e acabar com a revolução bolivariana. Há que não o esquecer, um minuto que seja.

 

Mais além das insuficiências e contradições exibidas por um processo emancipador com as características do venezuelano, a vitalidade, organização e potencialidades da revolução bolivariana sempre foram subestimadas pela burguesia venezuelana, eternamente levada a confundir os desejos com as realidades. O que este duríssimo ano que agora finda nos mostra, acima de tudo, é a capacidade da revolução bolivariana, que dá mostras de maturidade, firmeza e serenidade na prossecução dos objectivos estratégicos delineados que constam do Plano da Pátria 2013-2019. Perante as manobras desenfreadas de sabotagem económica e desgaste social, a unidade fundamental do governo de Maduro, das forças armadas bolivarianas e da base política e social organizada no Grande Pólo Patriótico garantiu a adopção de medidas importantes contra a especulação e a desestabilização. Medidas que passaram pela aprovação da Lei Habilitante, abrindo expectativas de um salto qualitativo no caminho das transformações na frente económica. Que contam com o apoio popular, como ficou demonstrado nas eleições municipais de 8 de Dezembro.

 

São muitas as responsabilidades assumidas pela revolução em curso na pátria de Bolívar. Para a Venezuela, mas também para a América Latina – onde os EUA e o imperialismo procuram há mais de uma década restituir o poder incondicional da ordem dominante – e o mundo. Os desafios não são menores. Pelo contrário. Os objectivos com vista a liquidar o carácter mono-produtor e rentista de uma economia petrolífera moldada pelos grandes interesses monopolistas de um sistema imoral – e em fase decadente – e assegurar o desenvolvimento agrícola e a reindustrialização nacional são, de facto, de grande monta e complexidade. Transformações que enfrentam arreigadas resistências internas e externas, incluindo de sectores incrustados no processo bolivariano – como a própria campanha anunciada contra a corrupção reconhece. A liderança bolivariana propõe-se deitar mãos à obra para erguer o novo modelo produtivo, a par da refundação do Estado e da construção de novas relações de trabalho. No caminho necessário da luta e acumulação de forças transformadoras, as grandes batalhas estão ainda pela frente.

 



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