Ainda que

Vasco Cardoso

Ainda que fosse uma em­presa que desse mi­lhões de euros de pre­juízo ao erário pú­blico, coisa que os CTT de­fi­ni­ti­va­mente não são. Ainda que a pri­va­ti­zação re­sul­tasse na sua trans­fe­rência para as pa­trió­ticas mãos de um qual­quer grupo eco­nó­mico na­ci­onal, ou para os mi­lhares de po­ten­ciais subs­cri­tores em bolsa, coisa que di­fi­cil­mente se an­tevê. Ainda que a en­trega dos CTT ao grande ca­pital não fosse acom­pa­nhada do brinde em que a per­missão dada nos úl­timos dias para que estes pas­sassem a exercer a ac­ti­vi­dade ban­cária que en­quanto em­presa pú­blica sempre lhes foi ne­gada. Ainda que os tra­ba­lha­dores da em­presa aplau­dissem a de­cisão deste go­verno e as po­pu­la­ções a quem re­cen­te­mente rou­baram as es­ta­ções de cor­reios lan­çassem fo­guetes por cada um dos mais de 200 bal­cões en­cer­rados nos úl­timos tempos. Ainda que desta pri­va­ti­zação re­sul­tassem os tão pro­pa­lados ga­nhos de efi­ci­ência e baixa de preços que são pre­di­cado de ou­tras em­presas pri­va­ti­zadas, como aliás o povo por­tu­guês bem co­nhece com as ex­pe­ri­ên­cias tidas nas te­le­co­mu­ni­ca­ções ou no sector ener­gé­tico. Ainda que fosse uma em­presa co­nhe­cida pelo seu pés­simo ser­viço e fa­li­bi­li­dade, coisa que apesar do re­co­nhe­cido es­forço das suas su­ces­sivas ad­mi­nis­tra­ções, está longe de tra­duzir o re­co­nhe­ci­mento pú­blico que a po­pu­lação lhe faz. Ainda que a dí­vida pú­blica fosse re­du­zida em função da re­ceita ob­tida, coisa que ao longo das úl­timas duas dé­cadas nunca acon­teceu, ou seja pri­va­tiza-se para abater a dí­vida e a dí­vida con­tinua a crescer. Ainda que o PS e o Pre­si­dente da Re­pú­blica es­ti­vessem de mãos limpas neste pro­cesso e cri­ti­cassem aber­ta­mente esta opção, coisa que não acon­teceu. Ainda que fosse o único país do mundo a pre­servar o ser­viço postal nas mãos do Es­tado, coisa que aliás está longe de acon­tecer. Ainda que tudo isto e muito mais ti­vesse acon­te­cido, não po­deria, nem ha­veria perdão, para tão avil­tante crime eco­nó­mico e so­cial, que cons­titui a de­cisão do go­verno PSD/​CDS de pri­va­tizar os CTT.

Com esta pri­va­ti­zação, que hoje, dia 5 de De­zembro, dá um novo passo com a co­lo­cação das ac­ções dos CTT na Bolsa de Va­lores de Lisboa, ha­verá uns poucos que abrirão umas gar­rafas de cham­panhe cum­prindo o ri­tual que um ex-di­ri­gente do PS con­fessou fazer por cada em­presa pri­va­ti­zada. E ainda que pa­reça im­pos­sível re­verter esta si­tu­ação, a ver­dade é que os cor­reios são do povo. Um povo que com a sua luta, mais cedo do que tarde, os fará re­gressar às suas mãos.




Mais artigos de: Opinião

Aveiro: Ontem e Hoje

Estávamos em 1973, na chamada primavera Marcelista que o PCP muito justamente considerou de Salazarismo sem Salazar. Em Aveiro, terra de fortes tradições democráticas, realizou-se o 3.º Congresso da Oposição democrática. O regime de então tudo fez para impedir...

O santo e a senha

Já se sabia que havia uns quantos portugueses multimilionários e que as respectivas fortunas cresceram nos últimos anos não obstante a crise, segundo uns, justamente à conta dela, segundo outros. Seja como for, vale a pena lembrar, a benefício do inventário, que o rico...

Revés da UE em Vilnius

Terminou em fiasco a Cimeira de Vilnius da Parceria Oriental da UE dos dias 28-29 de Novembro. O não ucraniano à associação com a UE estragou a festa com que Bruxelas se pretendia parcialmente redimir da arrastada crise em que labuta (os acordos preliminares rubricados com a Geórgia e...

O bestiário

A pose é a farda do Governo, com todos empertigados nas suas alocuções e supondo que o grosso da fala e a solenidade do rosto exudam credibilidade. Paulo Portas é obra consistente neste entremez. Diz tudo e mais um par de botas com a solenidade de quem se julga a falar para a...

A indignação saiu à rua num dia assim

O apelo da CGTP-IN foi muito claro e acer­tado: fazer de 26 de No­vembro, data da apro­vação do Or­ça­mento do Es­tado para 2014, um dia na­ci­onal de in­dig­nação, pro­testo e luta. E foi isso que se passou: en­quanto a mai­oria PSD-CDS apro­vava na As­sem­bleia da Re­pú­blica mais um or­ça­mento de roubo, mi­séria e des­truição do País, cá fora os tra­ba­lha­dores e o povo por­tu­guês re­jei­taram-no de forma con­tun­dente.