O gato persa

Anabela Fino

Para além de todas as dívidas que dizem que cada um de nós tem, incluindo quem não deve nada a ninguém por ter as contas do condomínio em dia, não ter recorrido ao crédito para o consumo e pagar pontualmente todas as suas contas, e incluindo também a dívida que cada português carrega logo à nascença – e ainda há quem se admire que nasçam cada vez menos crianças – para além de tudo isto, dizia, que os governantes de cá e além fronteiras traduzem em milhares de euros e políticas que empurram o povo para a miséria, temos ainda outro tipo de dívidas só susceptíveis de serem saldadas com uma enorme gratidão. O mais recente credor que apraz registar – e desde já as nossas desculpas se ficaram de fora outros messias – é o ministro Poiares Maduro, que há dias deu ao País um inestimável contributo para a compreensão do que entende ser o nosso devir nacional.

Foi na Assembleia da República, onde o ministro, perplexo com o facto de ninguém, exceptuando o Governo e seus apaniguados, reconhecer o sucesso das políticas das troikas – o pior já passou, há sinais positivos, estamos a sair da recessão, etc., etc., etc. – confessou que a forma como os detractores do Executivo analisam a situação de Portugal lhe recorda a Alice no País das Maravilhas, no tipo «ainda não é pequeno-almoço e eu já acreditei em seis coisas impossíveis».

Da troca de argumentos que se seguiu, com cada um dos intervenientes a socorrer-se dos personagens da história para vincar posições, deve reter-se a afirmação de Maduro de que se identifica com o «gato persa». Elucidativo. Para quem não se lembra, o gato de Cheshire é um gato fictício que se caracteriza pelo seu pronunciado sorriso e pela capacidade de aparecer e desaparecer. E também, o que não é de somenos, pelas suas reflexões filosóficas e pelo facto de indicar possíveis caminhos a Alice, ainda que de forma confusa, para se orientar no País das Maravilhas.

O caminho a seguir, diz o gato, depende de onde se quer chegar. «Eu diria, como o gato persa, façam a vossa escolha», afirmou Maduro. Voilá! Finalmente o reconhecimento de que tudo se resume, naturalmente, à escolha, ou dito por outras palavras, à opção de classe.

Assim se explica, entre muitas outras coisas, essa obscenidade que constitui o facto de o número de multimilionários em Portugal (com fortunas superiores a 25 milhões de euros) ter aumentado 10,8% para 870 pessoas no último ano, apesar da «crise». Como revela um relatório do banco suíço UBS divulgado há dias, em Portugal não só cresceu o número de multimilionários como aumentou o valor global das suas fortunas, de 90 para 100 mil milhões de dólares (mais 11,1%). E para que não restem dúvidas da dimensão deste verdadeiro escândalo fruto da escolha dos gatos, perdão, das troikas, importa dizer que o crescimento do número de multimilionários em Portugal foi maior do que a média europeia (8,7) e que o valor das suas fortunas aumentou também a um valor maior do que o crescimento na média europeia (10,4%), apesar de sermos um dos países da Europa mais violentamente atingidos pela dita «crise».

Voltando à fábula de Alice, resta dizer que Maduro se esqueceu de referir que Alice encontrou o caminho de saída do pretenso País das Maravilhas, deixando para trás o gato persa que foi desaparecendo, desaparecendo até nada restar, nem sequer o sorriso.



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