Nem acrobacias nem remendos salvam Governo

Cabe ao povo decidir o futuro

O PCP insiste na demissão do Governo e na convocação de eleições, condição para inverter o rumo de desastre nacional e romper com a política de direita.

 

Convocar eleições não é um problema, é uma solução

Esta ideia essencial foi reafirmada pelo líder parlamentar comunista, Bernardino Soares, quarta-feira da passada semana, em pleno desenrolar do que designou por «patética novela» protagonizada pelos partidos que suportam um Governo que «não tem sequer, a começar pelo primeiro-ministro, a dignidade para largar o poder que já não tem quaisquer condições políticas de exercer», devolvendo a palavra ao povo para este decidir do seu próprio futuro.

Na declaração política que proferiu no dia imediato à demissão «irrevogável» do ministro de Estado Paulo Portas, e dois dias depois do titular da pasta das Finanças ter dado idêntico passo, o presidente da bancada do PCP deteve-se na ida nesse mesmo dia de Passos Coelho a Berlim, zurzindo forte e feio no que viu como um acto de subserviência de quem foi a «correr buscar conforto e apoio para a sua continuação», «um primeiro-ministro que pensa que em vez de responder perante o povo português pode responder perante os seus mandantes do governo alemão».

A solução

E a questão que por estes dias se coloca a um sem número de portugueses é a de saber, perante esta «sucessão absurda de acontecimentos», se o Presidente da República não entende «estar em causa o regular funcionamento das instituições». Bernardino Soares, pela sua parte, não tem dúvida de que sim e por isso considerou que a única medida aceitável é a «demissão do Governo e a consequente dissolução da AR e convocação de eleições». Sob pena, se tal não acontecer, de ser o próprio PR a «pôr-se de forma inequívoca à margem desse regular funcionamento das instituições».

«Não há duas soluções possíveis para esta situação. Há uma única que é a demissão imediata e sem qualquer hesitação do Governo», sustentou o líder parlamentar comunista na sessão plenária onde este tema ocupou grande destaque perante uma maioria na defensiva e que não conseguiu esconder o seu embaraço, em particular o CDS-PP que se confinou a breves palavras de circunstância para justificar o silêncio.

Depois de rejeitar as ameaças e chantagens dos que querem fugir de eleições – os banqueiros, os «mercados» e os grupos económicos –, Bernardino Soares a todos deixou um recado: «convocar eleições e devolver ao povo o poder que é dele não é um problema, é uma solução. A única solução».

E a todos avisou também ser escusado virem «falar da ameaça de um segundo resgate que todos andam há muito a preparar para aplicar nova dose de roubo dos direitos do povo e dos recursos do País», ou virem agora dizer que se «vão deitar fora os sacrifícios feitos até agora». Esse é um exercício pueril, sustentou, «como se a situação em que colocaram o País, os que assinaram o pacto de agressão e o apoiam e os que nestes dois anos o aplicaram, não fosse um completo e absoluto desastre económico e social», «como se o prosseguimento deste caminho não significasse o afundamento cada vez maior da vida das pessoas e do futuro nacional».

Pela mudança

E se é verdade que a situação em que o País está «não permite uma resolução rápida de todos os seus problemas», não é menos verdade que estes «só se resolvem com a inversão do caminho seguido, com a ruptura com a política de direita e nunca com a sua continuação», considerou ainda Bernardino Soares.

Daí o PCP entender que «não serve ao País mudar de governo e não mudar de política, não serve ao País trocar um governo e um primeiro-ministro desgastado por outro que ainda não o esteja, não serve ao País quem queira continuar pelo mesmo caminho, mesmo que com esta ou aquela alteração circunstancial».

Este é o tempo, sublinhou Bernardino Soares, de «exigir uma verdadeira mudança». Nas suas palavras, uma política que rejeite o pacto de agressão, «em que seja o povo a mandar e seja o povo o destinatário das políticas e não, mais uma vez, os banqueiros, os grandes grupos económicos e financeiros, a especulação e as potências da União Europeia».

 

 



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