O SPD alemão e nós

Albano Nunes

A fazer fé em notícias publicadas José Seguro não regateou elogios à ajuda do SPD ao PS

As celebrações do 150.º aniversário do Partido Social Democrata alemão (SPD), o mais antigo e influente partido da «família social democrata» e um dos mais activos e poderosos instrumentos políticos e ideológicos do imperialismo, justificam alguns comentários.

1. Enquanto (também) sobre a Alemanha paira o espectro da recessão, as sondagens para as eleições de 22 de Setembro situam o SPD no mais baixo nível do pós-guerra. O SPD, que não aparece aos olhos do eleitorado como portador de algo diferente da CDU da srª Merkel, continua a pagar o preço da política reaccionária de Gerhard Schröder, o «amigo dos patrões», política que aliás conduziu a significativas fracturas no partido.

2. Daí a retórica e o show mediático em torno das celebrações, tentando projectar do SPD e de Peer Steinbrück, o seu «candidato a chanceler» uma imagem «progressista». Foi esse o sentido de fazer de François Hollande o «convidado de honra» o qual foi ao ponto de elogiar a «agenda 2010» com que Schröder desencadeou a sua violenta ofensiva exploradora contra os trabalhadores alemães. Mas de pouco valerá a ajuda daquele que, tendo sido apresentado como grande esperança de uma «viragem à esquerda» na Europa, está hoje desacreditado e é cada vez mais contestado nas ruas. O mesmo poderá dizer-se da ajuda do PS português com tiradas do género «Entre Merkel e Steinbrück há um fosso programático. Por aí passa a fronteira política que hoje interessa à Europa» (F. Assis, «Público» de 23.05.13).

3. Nada de significativo distingue as políticas do SPD e da CDU. As diferenças se as há são meramente tácticas, de estilo, de ritmo. Quando necessário dão-se abertamente as mãos para «grandes coligações», expressão superior da linha de «consensos políticos» e «pactos sociais» que se tornou política oficial da União Europeia (como da OCDE, do FMI e BM) e que está a ser institucionalizada à força de sucessivos saltos federalistas. As celebrações, abrilhantadas pela presença da chanceler alemã, apenas confirmam a realidade de que a social-democracia é hoje parte integrante do sistema de exploração, opressão e guerra imperialista.

4. Não admira por isso que o SPD ao ensaiar um «novo fôlego» para uma Internacional Socialista em crise de credibilidade e perda de influência, ao mesmo tempo que tenta alargar os seus tentáculos na África, Ásia e América Latina, retome a «Terceira Via» de Tony Blair e inclua no seu nebuloso projecto de uma «Aliança Progressista» o Partido Democrático norte-americano, com o ambicioso objectivo de construir um Global Deal, ou seja (Público de 21.05.13) «um novo pacto global entre o capital e o trabalho».

5. Nem admira que as celebrações do 150.º aniversário do SPD tenham sido aproveitadas para lançar novas pazadas de terra sobre a origem operária e marxista do partido em que militaram Marx e Engels, apagar as responsabilidades históricas do SPD no desencadear da 1.ª Guerra Mundial e no ascenso do nazi-fascismo, esconder o heroico papel dos comunistas na luta libertadora dos trabalhadores e do povo alemães.

6. A fazer fé em notícias publicadas José Seguro não regateou elogios à ajuda do SPD ao PS. Compreende-se. Mas é oportuno recordar que mais do que ajuda se tratou de descarada ingerência nos assuntos internos de Portugal; o conteúdo da «Europa connosco» que de mil e uma maneiras combateu a Revolução de Abril torna-se hoje ainda mais nítido à luz do pacto de agressão que está a infernizar a vida dos portugueses e a afundar o País. E isso o povo português não elogia.



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