Má consciência

Jorge Cordeiro

Há aqueles que por falso pudor ou falta de ocasião vão calando o que são até ao momento em que sentindo-se «em casa» dão largas à ilimitada arrogância que lhes enxameia o que têm entre as orelhas. Os Ulrich e os Espírito Santo desta terra estão entre esses. Em ambiente que lhes aguça o rancor e o despudor, ancorados naquilo que julgam ser a total impunidade, é só deixá-los abrir a boca para se perceber quem são. Depois de Fernando Ulrich sentenciar, animado pela criminosa política do Governo, que se os sem-abrigo aguentam, todos os milhares de outros que ele ambiciona ver nessa condição também hão-de aguentar, veio agora Ricardo Espírito Santo juntar-se ao coro de abutres. Embalado pela reconfortante presença da ministra Cristas; deslumbrado pelo que o regadio do Alqueva lhe pode propiciar de ganhos; empenhado em reinaugurar as praças de jorna que os que como ele por aqueles campos fomentaram há seis ou sete décadas; indignado pela desencorajante atitude dos que ousam trabalhar com salários dignos e horários de trabalho, Ricardo, vociferando contra os que desempregados e recebendo subsídio de desemprego se não disponibilizam para o trabalho que ele ambiciona oferecer, sentenciou que se assim não querem haverá, dando a vizinha Espanha como exemplo, um carrego de ucranianos disponíveis. Para lá da desfaçatez de quem chafurdando em dinheiro de outros engorda a sua arrogância, o que Ricardo não assume com a clareza devida é onde quer chegar: a da desmedida ambição de poder ter à mão, como as autoridades vizinhas já detectaram, trabalho escravo, muito dele angariado em redes de tráfico de seres humanos, a viver em condições sub humanas, a trabalhar de sol a sol, sem direitos e sem salário. É este o imaginário dos que vivendo à custa das recapitalizações pagas pelos que ambicionam escravizar, somando capital com o que especulam com o País, sonham poder um dia ver concretizado. Ambição que não conhecerá a luz da vida, por mais acalentados que se sintam pelo afago do actual Governo, pela simples razão que a dignidade dos trabalhadores e do povo não permitirá.



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