A provocação que não cessa…

Pedro Campos

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Lemos algures que o culto dos mortos, o respeito pelos que já partiram, é uma das manifestações do avanço da civilização humana ao longo dos milénios. Parece que o universalismo humanista desta afirmação não inclui a direita venezuelana.

A morte prematura (e suspeita) de Hugo Chávez e a convocação de novas eleições presidenciais envolveu o mais radical – e mediático – da oposição venezuelana numa lufada macabra de felicidade. Quando os resultados de 7 de Outubro obrigaram Enrique Capriles a reconhecer derrota, desabafou a sua frustração com esta declaração: «O tempo de Deus é perfeito e o tempo de Deus chegará». Nestes últimos dias, nos media nacionais e internacionais da direita abundam frases de alto representantes da oligarquia criola ao estilo de «o tempo de Deus é perfeito», «Deus deu-nos uma nova oportunidade» ou «uma nova oportunidade é um sinal divino para a oposição». E até o usurpador da presidência do Paraguai, entrou nesta bacanal fúnebre com uma frase que o retrata de corpo inteiro: «É um milagre que o senhor Chávez tenha desaparecido da face da terra..». Isto, dito numa entrevista ao jornal espanhol El País não lhe pareceu suficiente, pelo que esclareceria que se não foi um milagre «foi uma benção». Pagou cara a sua estultícia. Em Washington, numa sessão recente da OEA, a sua provocação teve uma resposta digna: 21 dos 34 países representados nessa organização negaram-se a escutá-lo e faltaram à mesma.

Muito ruído e poucas nozes...

No dia 4 de Abril e no caminho de desconhecer outro resultado que se adivinha negativo, os media gritaram: «Oposição denuncia que PSUV(1) tem palavra-chave de segurança do CNE», «PSUV teria palavra-chave para sabotar máquina eleitorais». O infaltável El País saltou logo com «a oposição denuncia que o chavismo tem acesso às máquinas de votação». Cedamos a palavra à oposição anti-chavista para que nos esclareça a importância desta situação.

A 5 de Abril, em declaração ao Canal 33 (canal golpista), Félix Arroyo, coordenador nacional da MUD,(2) explicitou que «essa palavra-senha se limita a indicar à máquina que arranque do disco rígido ou desde outra base como um pen-drive o um CD, pelo que, no caso de que se alterasse o que está previsto, o dispositivo não se inicializará e o CNE procederá à sua substituição». Mais: «o sistema está preparado para que não haja nenhuma irregularidade e se isso acontecesse, seria detectado (...) Não há nenhum risco de que se altere o processo do sistema eleitoral (..) nem o segredo do voto, nem a contagem dos votos, absolutamente nada».

Por outro lado, Vicente Díaz, reitor do CNE e ligado à oposição, para além de criticar que um militante do PSUV tivesse a dita palavra-chave (disposto, aliás, a partilhá-lha com a MUD), manifestou que isso não afectava a segurança do acto eleitoral. A mesma, acrescentou, não permite o «acesso às aplicações do sistema (com ela) não se pode tocar o sistema de votação, que está protegido com palavras-senhas e com procedimentos de autenticação que estão totalmente certificados». Por último registemos que, ainda no rescaldo desta situação, Guillermo Aveledo, secretário-geral da MUD, afirmou que a mesma «não põe em risco o sistema de votação, não põe risco o sistema de voto; é verdade, não põe em risco o software eleitoral de votação, de identificação de eleitores, de totalização, de produção de actas de escrutínio, de transmissão de resultados de recepção e totalização do CNE».

Pergunta-se então: o que é que justifica o escândalo inicial? Só a vontade de gritar fraude. Nada mais!

Ainda que não acredite...
Capriles mais chavista que Chávez?!

Capriles e a oligarquia que ele representa levam anos a gritar contra as missões e muito especial contra a presença dos médicos cubanos. Alegadamente, estariam na Venezuela mais como espiões que como médicos. Contudo, no desespero de uma nova derrota trocou o disco. Esquecendo-se que acusa de «tachistas» os beneficiados com as missões, agora «descobriu» que «as missões são boas, estão ali para o povo, são o seu direito, não as vamos eliminar»... e num arrebato de loucura de última hora foi ainda mais longe: «Hoje temos centro de saúde (...) Graças aos médicos cubanos o nosso povo tem saúde»… e concluiu oferecendo-lhes a nacionalidade venezuelana!!!

Que grande bebedeira eleitoral!

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(1)Partido Socialista Unificado de Venezuela (principal partido bolivariano)

(2)Mesa de Unidade «Democrática», coligação anti-bolivariana



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