Maioria trava revogação da lei dos despejos

Drama social não perturba Governo

Falar de «in­sen­si­bi­li­dade so­cial» não traduz hoje o que é a acção do Go­verno. Do que se trata, em áreas vi­tais, é de ter­ro­rismo so­cial. Veja-se a lei das rendas.

Esta é uma lei que fa­ci­lita os des­pejos

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Pela sua re­vo­gação con­tinua a bater-se o PCP, sem de­sis­tên­cias, de­pois de na pas­sada se­mana, dia 27, em agen­da­mento po­tes­ta­tivo, ter visto um pro­jecto seu com esse ob­jec­tivo chum­bado pela mai­oria PSD/​CDS-PP.

As ra­zões que pre­si­diram à sua apre­sen­tação são so­be­ja­mente co­nhe­cidas e as­sentam, ba­si­ca­mente, na con­si­de­ração de que esta lei dos des­pejos – assim lhe chama o PCP – é uma lei ta­lhada para servir os grandes in­te­resses imo­bi­liá­rios e fi­nan­ceiros, fra­gi­li­zando os di­reitos dos in­qui­linos e pondo em causa o di­reito à ha­bi­tação.

Sobre esses as­pectos não tem qual­quer dú­vida o PCP, como não têm os in­qui­linos que em nú­mero cres­cente estão a ser con­fron­tados com os efeitos de uma le­gis­lação de ar­ren­da­mento ur­bano que não pro­tege nem os idosos nem os de­fi­ci­entes nem os mais ca­ren­ci­ados.

E ao con­trário do que diz o Go­verno, esta é uma lei que fa­ci­lita os des­pejos, além de es­ta­be­lecer um «pseudo pro­cesso ne­go­cial» entre o in­qui­lino e o se­nhorio para ac­tu­a­lizar o valor das rendas que joga sempre em favor deste úl­timo.

A tudo isto, como ficou com­pro­vado no de­bate, soma-se ainda a ine­xis­tência de qual­quer res­posta so­cial.

Por isso esta é uma lei que pelo drama so­cial que está a gerar não se re­solve com re­mendos, como pre­tende o PS. «Só a sua re­vo­gação per­mite de facto re­solver o pro­blema. «Não é o pro­jecto de re­so­lução en­tregue pelo PS», as­se­verou Ber­nar­dino So­ares, não dando cré­dito a um texto onde se diz, citou de me­mória, que os in­qui­linos «se forem de­sem­pre­gados e nunca ti­verem fa­lhado um dia se­quer a renda, então, vá lá, podem não ser des­pe­jados neste mo­mento».

Belos ne­gó­cios

Ar­gu­mento adu­zido pelos par­tidos da mai­oria go­ver­na­mental foi en­tre­tanto o de que a lei é es­sen­cial para di­na­mizar o mer­cado de ar­ren­da­mento. «A di­na­mi­zação que está a ser feita do mer­cado de ar­ren­da­mento é a res­posta certa e ade­quada para que todos sejam mais li­vres», afirmou o de­pu­tado do PSD Cris­tóvão Norte, fa­zendo a apo­logia da lei que disse ga­rantir «um fun­ci­o­na­mento mais aberto do ar­ren­da­mento».

A mis­ti­fi­cação foi pron­ta­mente des­mon­tada pelo PCP, com Ber­nar­dino So­ares a pôr em evi­dência que se o nú­mero de pes­soas com con­tratos an­te­ri­ores a 1990 é de cerca de 200 mil e se é de cerca de 700 mil o nú­mero de fogos de­vo­lutos, então, «o pro­blema do mer­cado do ar­ren­da­mento é a exis­tência de 700 mil fogos de­vo­lutos que os pro­pri­e­tá­rios não põem no mer­cado e não os 200 mil idosos e ou­tros ca­ren­ci­ados que «têm rendas mais baixas do que al­guns se­nho­rios gos­ta­riam de ter».

Para o PCP é igual­mente claro que os grandes be­ne­fi­ciá­rios desta si­tu­ação não são os pe­quenos se­nho­rios, muitas vezes sem di­nheiro para fazer obras no seu pa­tri­mónio. Quem vai be­ne­fi­ciar são os grandes fundos de in­ves­ti­mento do sector fi­nan­ceiro, ac­tu­al­mente à es­preita, e que «vão com­prar a esses se­nho­rios os cen­tros das ci­dades e fazer aí os seus belos ne­gó­cios». «É para esses que esta lei é feita», cen­surou de forma vi­go­rosa Ber­nar­dino So­ares.

Evitar des­pejos

E quanto aos ale­gados cri­té­rios de sal­va­guarda que estão na lei (li­mite ao au­mento do valor da renda), foi con­si­de­rado du­vi­doso que sejam com­por­tá­veis para muitas fa­mí­lias. O que acon­tece é que os in­qui­linos não pagam só o au­mento da renda; pagam o au­mento do IRS, da saúde, dos trans­portes pú­blicos e esse é mais um au­mento a acres­centar a todos os ou­tros. Por isso é que a lei é tão in­justa e que a sal­va­guarda não fun­ciona.

Já quanto ao prazo que a lei de­ter­mina de cinco anos antes de novo e brutal au­mento – questão igual­mente co­lo­cada no centro do de­bate pelo PCP –, o pro­blema é saber o que vai acon­tecer de­pois a toda esta gente? «Que vai haver re­gime de apoio», res­pon­deram os par­tidos da mai­oria go­ver­na­mental. Mas então por que é que o Go­verno não re­vela esse apoio? A ex­pli­cação é sim­ples e foi dada por Ber­nar­dino So­ares: «o Go­verno não quis nem quer com­pro­meter-se com ne­nhuma so­lução; o que quer é que as pes­soas vão saindo».

E ao de­pu­tado do CDS Artur Rego, que con­tes­tara a ideia de que a nova lei fa­ci­lita os des­pejos, che­gando a de­sa­fiar o PCP a dizer «quantos já houve», foi res­pon­dido que «pois não, porque ainda não de­cor­reram todos os prazos da lei». «Mas o que hoje fa­zemos aqui é tentar evitar que esses des­pejos ve­nham a ocorrer, evitar as gra­vís­simas con­sequên­cias desta lei», acres­centou o pre­si­dente do Grupo Par­la­mentar do PCP.


Ex­pulsar dos cen­tros

No de­bate houve a ten­ta­tiva por parte dos de­pu­tados da mai­oria de fazer passar a ideia de que na lei existem cláu­sulas de sal­va­guarda que pro­tegem os que se «en­con­tram em si­tu­ação de ne­ces­si­dade», se­gundo as pa­la­vras do de­pu­tado do PSD Cris­tóvão Norte, as quais ale­ga­da­mente pro­te­ge­riam idosos e por­ta­dores de de­fi­ci­ência, ti­tu­lares e agre­gados fa­mi­li­ares de me­nores ren­di­mentos e por aí fora.

«Não é ver­dade!», re­petiu com ve­e­mência o de­pu­tado Paulo Sá, con­vi­dando à lei­tura do ar­ti­cu­lado da lei onde se diz que o se­nhorio tem a fa­cul­dade de au­mentar a renda se assim o en­tender até um quinze avos (1/​15) do valor pa­tri­mo­nial tri­bu­tário. Como este valor pa­tri­mo­nial subiu muito, em razão da ac­tu­a­li­zação que tem vindo a ser feita, con­se­quen­te­mente as rendas também dis­param e muitos in­qui­linos idosos não têm pura e sim­ples­mente hi­pó­tese de pagar.

O de­pu­tado co­mu­nista des­mentiu, por outro lado, que os mais ca­ren­ci­ados es­tejam pro­te­gidos, como diz o Go­verno e os par­tidos da mai­oria. «Não, não estão pro­te­gidos por esta lei», as­se­verou, es­cla­re­cendo que se é ver­dade que «há li­mites su­pe­ri­ores in­de­xados ao ren­di­mento dos agre­gados fa­mi­li­ares», não é menos ver­dade que «esses li­mites su­pe­ri­ores são muito ele­vados». E o que su­cede é que em re­sul­tado da po­lí­tica do pacto de agressão, ob­servou, as fa­mí­lias vêem a sua si­tu­ação ex­tre­ma­mente agra­vada, com a di­mi­nuição dos ren­di­mentos e o au­mento do custo de vida. Pelo que qual­quer au­mento de renda, mesmo de 25 ou 50 euros, é um au­mento sig­ni­fi­ca­tivo e em muitos casos in­com­por­tável.

Tes­te­munho desse facto deu-o ainda o de­pu­tado Jorge Ma­chado re­por­tando-se à ci­dade do Porto, onde um terço das ha­bi­ta­ções são de ar­ren­da­mento, cerca de 30 mil fogos. E citou uma po­sição da As­so­ci­ação de In­qui­linos do Norte onde esta in­forma que está a re­ceber di­a­ri­a­mente mais de 100 pe­didos de apoio ju­rí­dico, entre os quais avulta a questão da exi­gência de res­posta à carta do se­nhorio no prazo de 30 dias, sob pena de acei­tação au­to­má­tica do au­mento por este pro­posto.

«E os idosos que não sabem ler, que não per­cebem, que não sabem, que não res­pondem e por isso ficam su­jeitos ao re­gime da renda livre? É isto justo?», in­quiriu.

Ficou assim claro que o ob­jec­tivo desta lei é atingir es­sen­ci­al­mente os idosos, aqueles que têm con­trato de ar­ren­da­mento an­te­rior a 1990, que moram mai­o­ri­ta­ri­a­mente nos cen­tros ur­banos das grandes ci­dades. Trata-se de os ex­pulsar, seja por rendas muito ele­vadas seja pelo des­pejo, en­tre­gando esses cen­tros ur­banos aos grandes in­te­resses imo­bi­liá­rios e es­pe­cu­la­tivos.

 

O medo

Pro­vada no de­bate foi a ine­xis­tência de qual­quer res­posta so­cial da parte do Go­verno para os dramas que atingem os in­qui­linos. Vezes sem conta anun­ciada, a ver­dade é que tal res­posta nunca surgiu. Ale­gando que é pre­ma­turo mexer numa lei que tem es­cassos meses de vi­gência, a única res­posta que a mi­nistra As­sunção Cristas apre­senta é a dita co­missão des­ti­nada a mo­ni­to­rizar os re­sul­tados da apli­cação da lei. Mas o mais pro­vável, se­gundo Paulo Sá, é que aquela tenha apenas para mo­ni­to­rizar a «an­gústia e o de­ses­pero de inú­meros in­qui­linos», com con­tratos an­te­ri­ores a 1990, muitos de idade avan­çada, que estão a ser con­fron­tados com au­mentos in­com­por­tá­veis das rendas, com a ameaça do des­pejo. E que mesmo su­pe­rando a aflição do pre­sente, fi­carão des­pro­te­gidos daqui por cinco anos.

 

Des­culpas...

Agarrar-se ao aces­sório como pre­texto para não subs­crever o fun­da­mental, assim foi de início a po­sição adop­tada pelo PS, que viria a cor­rigir (com o anúncio do voto fa­vo­rável) após o PCP (para eli­minar des­culpas), ter ga­ran­tido que re­ti­raria do seu di­ploma o ponto re­la­tivo ao con­ge­la­mento da ac­tu­a­li­zação das rendas. «O que o PCP propõe é que se volte aos anos 40», afir­mara o de­pu­tado do PS Mota An­drade, para jus­ti­ficar a nega ini­cial da sua ban­cada, mis­ti­fi­cação pron­ta­mente anu­lada pelo de­pu­tado co­mu­nista Paulo Sá que viu nela não mais do que uma des­culpa es­far­ra­pada de quem «sabe que está pro­fun­da­mente com­pro­me­tido com esta lei dos des­pejos».

E, a pro­pó­sito, re­fres­cando a me­mória à ban­cada do PS, lem­brou que no me­mo­rando as­si­nado com a troika pelo go­verno do seu par­tido e por PSD e CDS-PP es­tava ins­crita uma re­visão da lei do ar­ren­da­mento para, «eli­minar gra­du­al­mente os me­ca­nismos de con­trolo das rendas», ou seja a sua li­be­ra­li­zação total. Mais, de­fendia-se o «pro­ce­di­mento de des­pejo extra-ju­di­cial por re­so­lução do con­trato» por forma a en­curtar o seu prazo.

Paulo Sá re­cordou ainda que, após o Go­verno ter apre­sen­tado o seu di­ploma, o PS veio a ela­borar uma pro­posta que aca­baria por ir mais longe do que aquele ao prever que o des­pejo pu­desse ser feito por con­ser­vador e ofi­cial de re­gisto, por ad­vo­gados, agentes de exe­cução, no­tá­rios, so­li­ci­ta­dores, de­fen­dendo, in­clu­si­va­mente, o poder de so­li­citar o au­xílio das au­to­ri­dades po­li­ciais para tomar posse do imóvel.

Já na recta final, Ber­nar­dino So­ares con­gra­tulou-se pela forma como evo­luíra o de­bate, no­me­a­da­mente por ter pre­va­le­cido o fun­da­mental, sendo que o fun­da­mental no pro­jecto de lei do PCP sempre foi re­vogar a lei das rendas.

O que não sig­ni­ficou re­negar as ra­zões que pre­si­diram à sua pro­posta de con­gelar a ac­tu­a­li­zação das rendas. É que num mo­mento de grave crise eco­nó­mica e so­cial como aquele que se está a atra­vessar «era justo sus­pender as ac­tu­a­li­za­ções», es­cla­receu o líder par­la­mentar do PCP, adi­an­tando que essa seria uma me­dida não «para sempre» mas apenas para «o mo­mento que es­tamos a viver». Não foi esse o ponto que es­teve no centro do de­bate, mas nem por isso a «pro­posta deixa de ser justa», afirmou.

 



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