Resgatar a soberania, afirmar Abril, fortalecer o Partido

Rui Fernandes (Membro da Comissão Política)

De cimeira em cimeira, elas próprias reveladoras das crescentes contradições que invadem as grandes potências capitalistas, Portugal vai cedendo parcelas de soberania. No plano nacional, o Orçamento do Estado aprovado pelo PSD e pelo CDS-PP, com a violenta abstenção do PS, carrega sobre os direitos dos trabalhadores e do povo, atira o País para a pobreza.

O Algarve expressa bem o rumo de declínio que está a ser seguido

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Cortam nos salários e pensões; destroem o Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública; querem impor o trabalho gratuito, desvalorizando o valor da força de trabalho e aumentando a exploração; destroem os apoios sociais e colocam a prazo em risco a Segurança Social, também através do negocismo efectuado com a banca sobre os fundos de pensões; atacam o Poder Local e a sua autonomia; querem entregar nas mãos privadas empresas estratégicas altamente lucrativas; destroem milhares de micro e pequenas empresas; querem impor de forma permanente o pacto de agressão, com a anunciada intenção de constitucionalizar os limites do défice, mais uma vez com o PS, no meio de muito palavreado, a emparceirar. Trata-se de um autêntico processo de demolição das conquistas de Abril, devidamente trabalhado no plano ideológico, em que os princípios e valores constitucionais são apresentados, com cada vez maior intensidade, como coisa do passado, como algo anacrónico. Só falta dizer que a Constituição da República é que é inconstitucional.

 

Algarve: uma região em declínio

 

Este é, como o Partido tem referido, o rumo do declínio nacional. Declínio que se torna bem patente quando olhamos o Algarve, onde o desemprego, mesmo na chamada época alta, alastra. Em que cresce o número de unidades hoteleiras sazonalmente encerradas (em Albufeira, de 20 casos recenseados, 16 estão de portas fechadas e todas elas funcionam a partir de empresas de trabalho temporário) e aumenta o número de rescisões com trabalhadores efectivos, alargando o espaço à prestação de serviços a partir de empresas de trabalho temporário.

A Adega Cooperativa do Algarve encontra-se em estado de pré-falência e há trabalhadores do comércio a ganhar 1,80 euros à hora. A construção do novo Hospital foi atirada para a gaveta. Estão em curso projectos de alteração no caminho-de-ferro que porão em causa o seu papel para uma estratégia de desenvolvimento regional. Várias corporações de bombeiros estão em estado de falência ou pré-falência, com dívidas de milhares de euros em combustíveis, viaturas paradas e, nalguns casos, estão mesmo a efectuar despedimentos. Surgem registos de fome entre alunos da Universidade do Algarve.

Os mariscadores e viveiristas são sujeitos a novos encargos, ao mesmo tempo que velhos problemas, como o da poluição da Ria Formosa, não são resolvidos e aumentam a pressão negativa sobre esses profissionais. Os pescadores costeiros, pelos custos dos factores de produção, as regras de venda em lota e o alastramento dos offshore da aquacultura, estão cada vez mais encurralados. Centenas de micro e pequenos empresários fecham portas, ou estão em vias de o fazer, pelo conjunto de razões que ao longo do tempo o Partido tem vindo a referir, a que se soma agora a introdução da roubalheira das portagens. Este é, em síntese, o retrato do Algarve que confirma, com renovado vigor, o lema lançado há cinco anos pelo Partido de ser necessário Um Novo Rumo para o Algarve.

 

Luta massas – motor da ruptura e mudança

 

O apelo do Comité Central à intensificação da luta de massas torna-se não só uma exigência como um imperativo. Um imperativo para derrotar esta política, resgatar a soberania, defender os valores constitucionais e afirmar Abril.

Luta dos trabalhadores contra o aprofundamento da exploração e em defesa dos direitos. Luta das populações contra a destruição dos serviços públicos. Luta que é indissociável da acção política do Partido de elevação da consciência, de combate à resignação e ao medo, de atracção de muitos democratas e patriotas que não aceitam um País tutelado e manietado e que, como noutros momentos da nossa história, connosco estarão na luta para quebrar as grilhetas da submissão que a classe dominante pretende instituir.

Temos pela frente um ano de 2012 recheado de complexidades e perigos, mas também pleno de possibilidades. Com a confiança que advém do nosso projecto e valores, do património de 90 anos do nosso Partido, prosseguiremos a luta por uma sociedade livre da exploração, pelo socialismo e o comunismo.



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