Um mundo em profunda mudança

Ângelo Alves

Os desafios que estão colocados à luta dos comunistas são enormes

O Avante publica nesta edição a declaração final do 13.º Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários realizado em Atenas, Grécia, de 9 a 11 de Dezembro. Este importante documento espelha muito do que une os partidos comunistas e operários e foi fruto de uma real e intensa discussão entre partidos que intervêm em condições diversas e por vezes muito diferentes. E essa é a sua maior riqueza: partir de pontos de vista diferenciados para chegar a uma visão convergente daquilo que é essencial para prosseguir e fortalecer a luta dos trabalhadores e dos povos, dos comunistas e de outras forças progressistas em todo o mundo.

O Encontro, longe de esgotar, e mesmo de dar resposta, à necessidade do aprofundamento da discussão de muitas questões que estão colocadas ao movimento comunista e revolucionário, espelha bem a muito complexa e exigente situação que os trabalhadores e os povos vivem. Fica por demais evidente que os desafios que estão colocados à luta dos comunistas são enormes

Se há traço que é possível identificar na discussão do Encontro esse é o do aprofundamento da crise estrutural do capitalismo, do sincronismo das suas expressões e da ofensiva do imperialismo que se intensifica com o aprofundamento da crise.


Não há nenhuma zona do globo, nem nenhum país, que esteja a salvo das consequências do aprofundamento da crise do capitalismo. Seja por via das ondas de choque da profunda recessão que afecta a tríade do capitalismo; por via dos efeitos das crises que se aprofundam no plano do mercado das matérias-primas, energético e alimentar; por via dos perigos resultantes do rápido aprofundamento das contradições inter-imperialistas, ou – e isso foi muito enfatizado – por via da violenta ofensiva do imperialismo no plano anti-social, antidemocrático e militarista que caracteriza, como sempre aconteceu, a reacção do sistema à sua própria crise.

Foram muitos os relatos dos perigosos ataques aos direitos sociais, laborais e sindicais dos trabalhadores, nomeadamente nos centros capitalistas, assim como de uma estratégia do imperialismo que comportando reais e crescentes perigos para a liberdade, para os direitos democráticos e a soberania, visa concentrar cada vez mais o poder político e económico – acentuando o carácter reaccionário do poder exercido pelas classes dominantes – conter a luta dos trabalhadores, mover abjectas perseguições contra todos aqueles que resistem à ofensiva imperialista – como é o caso gritante do anticomunismo com diferentes expressões em diversos continentes – ou tentar submeter ou ameaçar pela força países que não aceitam ajoelhar perante os diktats dos EUA, da União Europeia e da NATO, como são os casos da Síria e do Irão.


Pelo encontro internacional passaram também os testemunhos de um mundo em profunda mudança. Um processo que envolve por um lado o declínio de potências como os EUA e a profunda crise do processo de integração capitalista na Europa, e por outro a afirmação das chamadas economias emergentes e o prosseguimento de processos de afirmação progressista e soberana na América Latina que objectivamente representam avanços na luta anti-imperialista.

Uma das ideias centrais que retiramos da nossa participação neste Encontro Internacional é que o mundo está extremamente perigoso, instável e injusto. Mas simultaneamente foi possível constatar a intensificação da luta dos trabalhadores e dos povos, um maior papel dos comunistas nessa luta e uma crescente sua ligação às massas. E esse factor é fundamental para que num quadro de abrupta intensificação da luta de classes se possam construir as mais amplas alianças sociais, avançar na correcta definição das etapas da luta revolucionária e assim trilhar o caminho da construção do socialismo.



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