«Portugal não tem futuro se não produzir»
«Sem mais produção, sem mais criação de riqueza, sem um forte crescimento económico não há solução para o problema do défice das contas públicas, nem do emprego, nem solução para o pagamento da dívida externa», disse o secretário-geral do PCP nos comícios realizados em Avintes e Braga, iniciativas que inauguraram as acções de massas em torno da campanha «Portugal a Produzir» lançada pelo Partido.
«Está na hora de adoptar uma política que promova o investimento público e reforce o sector empresarial do Estado»
Ao início da tarde de sábado, Avintes decorou-se de vermelho para receber Jerónimo de Sousa. Da entrada da vila até ao auditório onde se realizou o comício, bandeiras vermelhas encimavam os postes eléctricos. Um pano pintado à mão dava mesmo as boas vindas ao secretário-geral.
Foi por isso sem surpresa que apreciámos a forte moldura humana que já esperava a comitiva comunista junto ao Auditório do Parque Biológico de Vila Nova de Gaia. À entrada do edifício rodeado de verde, centenas de homens e mulheres conversavam animados. Um olhar rápido para dentro da sala deixou o vaticínio- não vão caber todos.
Com entusiasmo, o colectivo habituado a superar escolhos, lá foi capaz de se acomodar. Nos corredores laterais ficaram quase tantos como nas cadeiras. No átrio ainda sobejaram alguns, menos afoitos que os muito jovens que enchiam a sala.
E foi precisamente a presença da juventude que Jerónimo de Sousa começou por destacar na intervenção que encerrou o comício-festa em Avintes. «Razão para termos confiança no futuro, mas também no presente deste nosso Partido», garantiu.
Razão tem também o PCP quando afirma que a vida prova o que há muito vimos alertando. «Todos os dias se agravam os problemas económicos e as dificuldades sociais. As medidas de austeridade que PS e PSD estão a impor, não só agravam as injustiças, degradam a vida dos portugueses e a pobreza, o desemprego, a precariedade, os baixos salários, como prolongam a situação de crise e de estagnação económica, contribuem para novos encerramentos e criam mais dificuldades às pequenas e médias empresas», afirmou o secretário-geral do PCP.
Bem tentam «os responsáveis políticos e os comentadores ao serviço da política de direita» ocultar as evidências, mas a «insuficiência na produção da riqueza nacional», o «fraco crescimento da economia e a incapacidade das actuais políticas em criarem emprego» assumem-se, no actual contexto, como os problemas centrais.
Realidade confirma
«É preciso dizer e repetir: o País não conseguirá ultrapassar os seus problemas de forma duradoura e sustentada sem uma política que combata o défice mais preocupante – o de produção e criação de riqueza – que está na origem de todos os outros nossos défices, onde se inclui o preocupante défice de emprego, que este distrito do Porto bem conhece e, particularmente, este concelho de Vila Nova de Gaia», prosseguiu.
«É preciso pôr Portugal a Produzir! Não é a destruir o sistema de protecção social. Não é a aumentar a exploração de quem trabalha. Não é a aumentar as desigualdades e a pobreza que se resolvem os problemas do País. É produzindo mais para dever menos e, ao mesmo tempo, distribuir melhor e com mais justiça [a riqueza]. Esta é que é a questão estrutural à qual a política de direita não responde», insistiu o dirigente comunista.
«A evolução da situação no distrito do Porto mostra bem o fracasso e a incapacidade da política de direita», fiasco que «resulta das suas opções essenciais, que privilegiam a financeirização da economia, o absoluto favorecimento dos interesses dos grupos económicos e do capital financeiro».
A agricultura e as pescas, a situação aflitiva dos produtores de leite, o encerramento de empresas das indústrias transformadoras - que atingiram de forma dramática concelhos como o de Vila Nova de Gaia, Gondomar, Matosinhos, Porto, Valongo, Maia, Penafiel ou Trofa – ilustram o triste cortejo da política de declínio nacional. «Há indústrias como as têxteis e as metalúrgicas, com grande implantação neste distrito, que sofreram uma verdadeira devastação», situação que, actualmente, se estende ao comércio.
«Falavam eles na necessidade de assegurar a coexistência e equilíbrio dos diversos formatos de comércio», lembrou Jerónimo de Sousa. «Mas o que vimos foi o cerco ao pequeno comércio. Nos últimos dez anos, a abertura sem restrições de novas unidades de grande distribuição, num quadro de forte concentração, conduziu à entrega a quatro grandes grupos económicos de mais de 80 por cento do comércio retalhista nacional. Nos últimos três anos, mais que duplicou a oferta da grande distribuição», esclareceu.
«A recente decisão de liberalização do horário do comércio, acabando com as restrições para as superfícies com mais de 2000 m2 nas tardes de domingo e feriados, constitui mais um rude golpe na situação de crise em que se encontra o comércio tradicional e será um novo factor para o seu agravamento», frisou ainda.
Portugal não é um país pobre
Contrariamente ao que dizem os propagandistas das orientações antipopulares, «o nosso País tem recursos e potencialidades que há muito estão desaproveitadas». O distrito do Porto é um bom exemplo disso mesmo. Aqui, encontram-se «condições naturais, capital humano, infra-estruturas ainda não suficientemente aproveitadas que permitem contribuir para um País que produza, crie riqueza e emprego, invertendo o ciclo de empobrecimento e dependência que há muitos anos se verifica», insistiu o secretário-geral do PCP.
A ideia perpassou igualmente o discurso de Jerónimo de Sousa no comício em Braga. Com a Avenida Central da cidade nas costas e perante mais de meio milhar de militantes e simpatizantes comunistas, o secretário-geral do Partido sublinhou que «o distrito de Braga, apesar de ter uma população empobrecida pela política de direita, não é um distrito pobre».
É, seguramente, «um distrito onde a política de direita se tem feito sentir no plano económico e social», mas, simultaneamente, constitui um exemplo daquilo que afirmamos: é possível o crescimento e o desenvolvimento económico. É possível combater o desemprego com mais produção», disse arrancando a primeira das muitas aclamações calorosas que aqueceram uma noite de frio já outonal.
«Temos assistido, nestas duas últimas duas semanas, ao adensar deliberado de um clima propício à aplicação de novas medidas de austeridade contra os trabalhadores e o povo. Já preparam o Orçamento do Estado e, ao mesmo tempo, procuram justificar as desastrosas políticas económicas e anti-sociais acordadas pelo PS e PSD no âmbito do PEC», afirmou.
«Esquecem que cada vez que autorizam mais despedimentos - como aconteceu na Coelima, na Riopele, na Lameirinho, na Têxtil Manuel Gonçalves, ou, mais recentemente, em duas empresas do Grupo Orfama - transferem para a Segurança social mais despesa. Baixar os braços perante o desemprego, significa contribuir para o défice.
«E por isso é justo dizer que o desemprego é o maior dos desperdícios da produção nacional e factor de agravamento da exploração de todos os trabalhadores. Entre a riqueza não produzida e os custos sociais do desemprego, o custo estimado para o País ronda os 20 mil milhões de euros por ano».
«Como explicam que em Agosto tenham sido despedidos no distrito de Braga 30 trabalhadores por dia? Isto num mês em que tradicionalmente a evolução é a inversa. E como compreender, também, que perante esta situação, o Governo ataque o direito ao apoio social, chegando ao ponto de suspender milhares de subsídios enquanto os beneficiários não fizerem prova dos respectivos rendimentos».
«A situação neste distrito mostra bem o fracasso da política de direita na resolução dos problemas que o País enfrenta. Um País que não produz, que só serve os interesses dos mercados financeiros, é um País sem futuro».
Política de Estado precisa-se
Assim, para Jerónimo de Sousa «está na hora de adoptar uma política de Estado que concretize um modelo de substituição de importações por produção nacional; que tenha como objectivo garantir a soberania alimentar, o pleno emprego e o emprego com direitos; que aposte prioritariamente na dinamização do mercado interno sem desguarnecer as exportações».
«Uma política de Estado que é inseparável da melhoria das condições de vida da população, do aumento dos salários e pensões, do alargamento dos direitos dos trabalhadores, do combate à precariedade». Política exequível através de «mais investimento público» e através do «reforço e ampliação do sector empresarial do Estado com planeamento económico, cumprindo também aqui a própria Constituição da República», concluiu.
Todos na luta
Os comícios realizados em Avintes e Braga antecederam a jornada de luta convocada pela CGTP-IN para ontem, dia 29. Nas iniciativas, o secretário-geral do PCP alertou para a necessidade dos trabalhadores «não se resignarem».
«Mais do que nunca é preciso combater o fatalismo» e «engrossar a corrente de luta, dando uma forte resposta à ofensiva e, ao mesmo tempo, afirmando uma verdadeira alternativa, patriótica e de esquerda».
«É preciso travar a ofensiva do PEC e o seu agravamento através do Orçamento do Estado. É preciso dar força à exigência do aumento dos salários e das pensões, incluindo o Salário Mínimo, cuja actualização estão já a pôr em causa. É preciso exigir mais emprego e emprego com direitos e condições de dignidade a quem neste momento está desempregado», exortou.
«Eles não querem que pensemos assim e todos os dias nos bombardeiam com as inevitabilidades. Governantes e ex-governantes que só afundaram o País vêm agora dizer que é preciso cortar salários, pensões, direitos. Nós não podemos aceitar esta ofensiva ideológica. E eles são espertos. Sabem que quanto mais o povo estiver mole, mais carregam. Que quanto mais vencidos estiverem os trabalhadores, mais podem avançar».
«Não tenhamos ilusões, não tivessem eles medo da luta e do seu desenvolvimento, e já tinham imposto outros cortes brutais. Têm medo, receiam a luta. E não é a luta de cada um por si, mas a luta organizada», recordou Jerónimo de Sousa.
Reforçar a candidatura
patriótica e de esquerda
«Quando Portugal está confrontado com graves problemas e quando pesam sobre o regime democrático novas ameaças e novos ataques à Constituição da República, as eleições presidenciais exercerão uma importante influência para defender os valores de Abril e abrir caminho a uma nova fase da vida nacional», afirmou o secretário-geral do PCP.
Abordando o tema das presidenciais em ambas as iniciativas, Jerónimo de Sousa disse ainda que «esta candidatura incomodou», facto comprovado pelas recentes sondagens que se somam ao coro dos que procuram apoucar a dinâmica que se está a gerar em torno de Francisco Lopes.
«Preparemos, por isso, a única candidatura que se apresenta perante os trabalhadores e o povo com um claro propósito de ruptura e mudança», dirigida «a todos os democratas», decidida «a afirmar e a mobilizar para um grande projecto político patriótico e de esquerda», instou, recebendo sempre como resposta a palavra de ordem que já dá o mote para uma grande campanha de massas – «Francisco, avança, com toda a confiança!».
Rua com a política de direita
Nos dias que antecederam as iniciativas do PCP nos distritos do Porto e Braga, PS e PSD criaram uma polémica em torno da aprovação ou não aprovação do próximo Orçamento de Estado. Ameaças de que o FMI aterrará em breve na Portela e investidas, para já verbais, contra o «Estado Social», repetiram-se igualmente entre o coro de analistas, comentadores e especialistas autóctones e forasteiros.
A questão, porém, não é saber «se há ou não há Orçamento», mas se o diploma «é bom ou mau» para os trabalhadores, o povo e o País, aludiu Jerónimo de Sousa.
«Procuram incutir na opinião pública a inevitabilidade das medidas que o grande capital económico e financeiro, nacional e internacional, defende para manter intocáveis os seus interesses e dar um novo fôlego à política de direita», explicou.
«Soubemos esta semana que, apesar de todos os arrufos, PS e PSD se encontraram às escondidas para negociar. Não acertaram bem a estratégia e Sócrates ameaça ir embora. Como se viesse mal ao mundo se se fosse embora e levasse com ele a política de direita», considerou.
«Não nos preocupemos com a ameaça de Sócrates», avisou o secretário-geral do PCP. «E muito menos com o PSD, que acabará por ir ao carreiro, pois quem determina o desfecho não é Sócrates nem Passos Coelho, mas o mercado, esse invisível, sem rosto. Com o PSD a votar a favor ou a abster-se, lá se entenderão para salvar a política de direita», garantiu.