Deixem os transportes públicos!
Em defesa da componente pública e social do sistema de transportes do distrito de Lisboa, activistas de sindicatos, comissões de trabalhadores e comissões de utentes realizaram uma acção de esclarecimento no dia 29 de Julho.
Só os grandes grupos ficam a ganhar
Em diversos locais, privilegiando alguns pontos de maior circulação de pessoas, foi distribuído um documento em que se contesta a intenção do Governo, com acordo do PSD e do CDS, de privatizar ainda mais os transportes públicos na Área Metropolitana de Lisboa. Defendendo que, no combate a este objectivo, utentes e trabalhadores do sector estão do mesmo lado, os sindicatos dos Ferroviários e dos Rodoviários (SNTSF e STRUP, ambos da CGTP-IN), as comissões de trabalhadores da CP e da EMEF, as comissões de utentes das linhas de Sintra, Azambuja e Cascais, e a Comissão de Utentes dos Transportes da Cidade de Lisboa apelam a que a população se mantenha atenta e vigilante, para não permitir que tais medidas sejam concretizadas.
No folheto, de duas páginas, avisa-se que, «com a privatização, os transportes públicos ficariam mais caros ao Estado e mais caros aos utentes, ao mesmo tempo que o Estado perderia capacidade de direcção de um sector estratégico para a economia e os utentes veriam os serviços reduzidos para maximizar os lucros». Este alerta é fundamentado na experiência dos anteriores processos de privatização dos transportes rodoviários, da GALP e da EDP, mas também da entrega à gestão privada da travessia sobre o Tejo. E decorre igualmente da experiência da privatização dos transportes na Inglaterra.
Nem o Estado nem os utentes ganham com a privatização, mas o Governo e os partidos que o apoiam nesta intenção insistem nela. A explicação «reside no facto de que os únicos que ganham com a privatização serem quem manda no País e no Governo: os grandes grupos económicos».
É referido com destaque o caso da Fertagus, clarificador do que são as privatizações dos transportes públicos: em cinco anos, 45,9 milhões de euros foram entregues directamente pelo Estado à Fertagus; ora esta usa comboios comprados pelo Estado, em linhas e pontes construídas pelo Estado; paga aos seus trabalhadores menos do que a CP, e cobra bilhetes mais caros que a CP; recentemente mandou o Estado fazer e pagar umas obras de que precisava; e arrecadou 5 milhões de euros de lucros num só ano.
«Não admira que queiram abocanhar também a CP Lisboa e ampliar a negociata», comenta-se no documento, para concluir que «é com negócios destes que o País fica cada vez mais pobre, e os ricos cada vez mais ricos».
Perguntas... com respostas
O folheto distribuído dia 29 de Julho inclui sete perguntas sobre os transportes públicos e a pretendida entrega de mais uma importante fatia destes ao capital privado. Para todas as perguntas são indicadas duas ou três respostas... todas certas! Por exemplo:
- Os trabalhadores não foram aumentados! O IVA subiu um por cento. Mas os preços dos bilhetes subiram 5 cêntimos, no mínimo, entre quatro e seis por cento. Porquê? - Porque pensam que não sabemos fazer contas! - Porque continuam a praticar uma política de sacar tudo o que podem dos bolsos de quem trabalha, para pagar as ajudas à banca! - Ambas.
- No Metro, há mais de seis meses que estão as escadas rolantes e os elevadores sem serem reparados! Porquê? - Porque não estão preocupados com isso! - Porque querem degradar a imagem do serviço público para facilitar a sua privatização! - Porque já privatizaram as reparações! - Todas as três.
- A CP Carga assegura 90 por cento do transporte ferroviário de mercadorias. O Governo quer vendê-la, e quem a vai comprar é a empresa pública alemã que já monopoliza 75 por cento deste transporte na Europa! Porquê? - Porque a economia alemã quer assegurar o monopólio de um sector estratégico para as suas exportações! - Porque o Governo português não defende o interesse nacional e obedece às directivas europeias que a Alemanha escreve. - Ambas.
- A EMEF assegura a manutenção de todos os comboios. O Governo quer vendê-la, e já começou a alugar comboios a Espanha, com a manutenção realizada nesse país! Porquê? - Porque acha que 11 por cento de desemprego não é suficiente! - Porque as multinacionais querem assumir o monopólio da manutenção ferroviária e mandam mais que o interesse nacional! - Ambas.