Sem respostas de Sócrates e do PS

Mineiros esperam Pinho

Insatisfeitos pelo resultado das reuniões, anteontem, com um assessor do primeiro-ministro e com o Grupo Parlamentar do PS, os trabalhadores das Pirites Alentejanas vão terça-feira questionar o ministro da Economia.

A mina a laborar é necessária à região e ao País

Naquela data, 2 de Dezembro, termina o prazo definido por Manuel Pinho para ficarem concluídas negociações com grupos internacionais que estariam interessados em adquirir as Pirites Alentejanas à Lundin Mining. Esta multinacional, que desde dia 13 suspendeu a extracção e produção de zinco nas minas de Aljustrel e de Neves Corvo (continuando aqui, através da Somincor, a laboração de cobre), anunciou sexta-feira que passa a ser uma subsidiária da canadiana HudBay Minerals, no resultado de um negócio de quase 500 milhões de euros, que deverá ficar concluído em Maio de 2009.
A decisão de há duas semanas foi justificada com os preços baixos do zinco, no mercado internacional, e com os prejuízos que daí derivavam para as Pirites, sem qualquer referência da empresa aos soberbos lucros obtidos em Neves Corvo, no vizinho concelho de Castro Verde. A declaração das minas de Aljustrel em situação de manutenção de instalações representa a liquidação de mais de uma centena de postos de trabalho, directamente ligados à empresa, e de cerca de 800 empregos de empresas sub-contratadas.
A deslocação de anteontem, decidida em plenário, no dia seguinte à audiência com o ministro da Economia, teve por objectivo confrontar José Sócrates com as declarações que produziu, a 19 de Maio, na cerimónia solene que assinalou a retoma da exploração comercial das minas de Aljustrel, interrompida durante 15 anos, em que os mineiros e a população não se cansaram de combater o encerramento definitivo. Há seis meses, o primeiro-ministro tinha apontando as Pirites Alentejanas como um exemplo do investimento estrangeiro de que o País necessita.
As cerca de 300 pessoas que viajaram anteontem de Aljustrel até à residência oficial de José Sócrates queriam saber quem serão os potenciais interessados na compra da empresa que a Lundin preferiu colocar «em manutenção» para reduzir prejuízos. O assessor, que, ao final da manhã, recebeu uma delegação dos trabalhadores, não deu tal informação, esclarecendo que o primeiro-ministro não estaria autorizado a divulgar o nome. «Mas ficou sem resposta, igualmente, quando lhe perguntámos quem não autoriza o primeiro-ministro a revelar esse nome», revelou Manuel Bravo.
Em declarações ao Avante!, este dirigente do Sindicato Mineiro e da Fiequimetal/CGTP-IN informou ainda que os grupos parlamentares do PCP, do PEV, do BE e do CDS, nas reuniões que tiveram lugar durante a tarde, declararam o seu apoio às posições do sindicato e da comissão de trabalhadores, pelo prosseguimento da laboração e pela preservação dos postos de trabalho. No PSD, não houve disponibilidade para receber os mineiros.
Da parte do PS, não foram expostos novos argumentos, reafirmando o apoio do grupo maioritário ao seu Governo e tentando alimentar a vaga esperança de que «para breve são esperadas boas notícias». Os representantes dos trabalhadores explicaram que estes têm dificuldade em acreditar no PS e recordaram que, a 19 de Maio, na reabertura da exploração das minas de Aljustrel, entregaram a José Sócrates uma carta-aberta em que alertavam para a elevada precariedade, os baixos salários, as deficientes condições de trabalho e vários problemas técnicos de equipamentos e organização da laboração. O primeiro-ministro terá menosprezado o alerta e até retorquiu, interrogando se «vocês querem isto a trabalhar, não querem»... «Afinal, confirmou-se agora que nós tínhamos razão e que aquilo era um projecto sem futuro», conclui Manuel Bravo.

Graves consequências

José Godinho, presidente da Câmara Municipal de Aljustrel, esteve entre as três centenas de manifestantes, que se concentraram junto à residência do primeiro-ministro, após um curto desfile desde o Jardim das Francesinhas, onde pararam os autocarros que vieram da vila mineira. «Vou integrar a manifestação, porque a suspensão da produção na mina de Aljustrel, além de um problema laboral, é também um problema social e económico, que afecta todo o concelho», explicou aos jornalistas o autarca comunista.
A dimensão dos problemas poderá ser mais grave, à medida que vão sendo conhecidas atitudes como a que tomou a Epos. Esta sociedade da Teixeira Duarte com uma empresa espanhola, subcontratada pelas Pirites Alentejanas, mandou para casa os seus trabalhadores efectivos ali colocados, mas não lhes entregou qualquer documento a comprovar tal indicação. «Quando nos apercebemos disto, ficámos muito preocupados e alertámos os trabalhadores, que ficam numa situação em que, por ausência injustificada ao trabalho, podem ser alvo de despedimento com justa causa», conta Manuel Bravo. Quando operários e representantes sindicais tentaram contactar a Epos, não encontraram nenhum responsável que os recebesse.
Ao fim de alguma insistência, um resultado diferente foi obtido na empresa de limpeza que tinha nas Pirites nove trabalhadoras e que já procedeu à retirada dos equipamentos. A gerência da Reilimpa aceitou reunir, ainda esta semana, em Aljustrel, na sede do sindicato, revelou aquele dirigente.
Entretanto, os últimos dias confirmaram a não explicada pressa da multinacional em fazer a redução de pessoal das Pirites muito rapidamente, contando para tal com o facto de mais de uma centena de trabalhadores estarem com vínculos precários.
Para dia 4, quinta-feira, está agendado novo plenário de trabalhadores, em Aljustrel.


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