Deixemo-lo, então, salivar

José Casanova
Há dias, Vasco Pulido Valente (VPV) verteu, no espaço que o Pú­blico lhe paga para encher, um texto aparentemente dedicado ao Europeu de futebol.
Começa assim: «Absurdamente, a esquerda (o Bloco e, em parte, o PCP) resolveu aproveitar o Europeu para uma campanha contra o futebol» - e vai por aí fora, como só ele sabe ir, fértil em disparates e tontarias, tantos e tantas que seria disparate grande e tontaria ainda maior gastar cera com tão pouco defunto.
Por isso, fico-me pela transcrição acima feita - por isso, e porque aquele espectacular e sensacional anúncio da cam­panha da es­querda contra o fu­tebol precisa ser, primeiro, decomposto e, a seguir, penalizado com o açoite de um brando cartão amarelo.
Não sei, nem estou particularmente interessado em saber, se o «Bloco» está a fazer «campanha contra o futebol». Se está, é lá com ele, se não está, com ele é. Ponto final.
Mas sei, e é isso que para o caso interessa, que o PCP não está a fazer «campanha contra o futebol». Nem «em parte» (como VPV afirma), nem no todo (como VPV insinua). Ora, assim sendo – e é – esta verdade, incontornável porque indesmentível, remete desde logo a mentira de VPV para o rasteiro lugar que lhe é devido.
Quer isto dizer que VPV é mentiroso? Quer – mas não demos a isso mais importância do que na realidade tem, já que nada acrescentaria ao que o homenzinho de si nos mostra na generalidade dos escritos que produz.
Não sei se a mentira de VPV é fruto de má informação, sei lá, brincadeira dita com ar sério por algum amigo após uns copos bebidos enquanto viam a transmissão de um qualquer jogo do Europeu e que ele engoliu no literal sentido da palavra. É provável. E se assim foi, VPV deveria, honestamente, vomitar a mentira e exibi-la publicamente como tal.
Pode ter acontecido, também – e, dadas as circunstâncias, é o mais provável – que VPV tenha sido assaltado por aquele reflexo condicionado que o faz salivar e, de imediato, mentir, deturpar, caluniar, despejar raivas, sempre que ouve falar no PCP ou o PCP lhe vem à memória.
Foi isso, está visto. Deixemo-lo, então, salivar.


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