A diferença

Anabela Fino
«Lá vamos, cantando e rindo.../Levados, levados sim.../Pela voz, do som tremendo.../Das tubas, clamor sem fim.../Lá vamos, que o sonho é lindo...». As estrofes do Hino da Mocidade Portuguesa soam ainda na cabeça de boa parte da população, que isto de matraquear uma mensagem até à exaustão sempre deixa as suas mossas, e parecem quase uma brincadeira de crianças comparadas com as actuais técnicas de lavagem ao cérebro. É que no tempo do fascismo o anticomunismo era tão primário que só encontrava terreno fértil no mais profundo obscurantismo, condição sine qua non para se acreditar que os malvados dos comunistas «comiam criancinhas ao pequeno almoço» e «matavam os velhos com uma injecção atrás da orelha». Agora a conversa é outra, embora em boa verdade não se possa dizer que «fia mais fino». Digamos que a essência é a mesma, mas com farpela nova, como naqueles versos do Aleixo sobre as moscas. Mas adiante. Vem isto a propósito dos exames nacionais nos diferentes graus de ensino, que começaram por dar que falar devido ao «milagre» ocorrido com as provas de matemática. De um ano para o outro, por obra e graça do Ministério da Educação (ME), o insucesso dos alunos na fatídica disciplina foi reduzido a metade, o que muito alegrou a ministra e aliviou as estatísticas. O ovo de Colombo, ao que parece, foi confrontar os alunos com provas tipo «simplex», e gabar depois a esperteza saloia.
Mas as avarias não se ficaram por aqui. Uma leitura ao exame de História A do 12.º ano, por exemplo, mostra quanto o ME se preocupa com a formação dos nossos jovens e como não olha a meios para assegurar que ao sairem da escola, seja para o mundo do trabalho (se houver) ou para a faculdade, trazem a cabeça bem espartilhada entre as orelhas. Na dita prova os infantes eram solicitados a identificar, a partir de textos escolhidos a preceito, «três das práticas políticas do estalinismo», podendo para o efeito escolher entre «controlo do aparelho partidário», «campanhas de depuração/purgas», «trabalhos forçados», «repressão policial» e «deportações». Outra questão remetia para a análise do «expansionismo soviético no mundo bipolar, de 1945 à data da morte de Brejnev». Para que as jovens criaturas não ficassem traumatizadas com a demoníaca URSS, havia naturalmente de lhes fornecer um contraponto. Nada melhor do que um discurso de Kennedy durante a crise dos mísseis em Cuba, onde o então presidente norte-americano apelava ao homólogo Kruchtchev para que abandonasse a competição «pelo domínio do mundo» e se juntasse aos EUA «para pôr fim à perigosa corrida aos armamentos». Da prova não consta uma linha sobre o facto de os EUA serem o único país do mundo que até hoje usou bombas atómicas contra alvos civis, nem sequer que o pacífico Kennedy desencadeou a guerra contra o Vietname, nem que a corrida aos armamentos que ainda hoje continua tem nos EUA os principais mentores. O contraditório não faz parte da política educativa do ME, como não fazia parte da política de educação do fascismo. A diferença, é que nem o fascismo se atreveu a ir tão longe na manipulação da História como o faz este Governo dito socialista. Dispensamos mais comentários. O PS que descubra as diferenças.


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