• Henrique Custódio

O Maio deles
O Bloco de Esquerda decidiu comemorar o Maio de 68 no próximo sábado, promovendo uma patuscada na cantina do ISCTE, em Lisboa, e rodeando-a de algumas animações, como umas palestras e uns «filmes de época» a entreter duas horas durante a manhã até à chegada do almoço, rematando à tarde com uma hora de concerto, onde brilhará «uma banda luso-francesa bem humorada», mais um apontamento teatral de meia hora e desembocando no «plat de résistance», o comício da praxe abrilhantado pelo inevitável Francisco Louçã, esse líder fatal «das esquerdas».
Ornamentado com frases em francês (o que também nos absolverá do francesismo do «plat») – MAI68 – Début d'une lutte prolongée (Mai68 – Início de uma luta prolongada) ou Une place pour chacun dans un monde nouveau (Um lugar para cada um num mundo novo) – o panfleto mobilizador da iniciativa, além de gritar na capa «REVOLUÇÃO JÁ!» (o que parece algo contraditório com a assumpção da «lutte prolongée», mas como está em francês é capaz de não ser para levar a sério), promove artistas mimosos como a banda «Moi non plus», produz frases misteriosas como «Debaixo do alcatrão, a praia» mas, sobretudo, é de uma eficácia esplendorosa no fornecimento de «Informações Úteis».
Na secção do «Transporte» (passamos a citar) «Está prevista a organização de autocarros (5 euros ida e volta) a partir de vários pontos do país. Nas capitais de distrito de onde não partirem autocarros serão organizadas deslocações de automóvel». Segue-se email e telefones do Bloco, para contacto.
Ora aqui está! Quem quiser vir passear a Lisboa no próximo sábado por um conto de réis ida-e-volta (sublinhado nosso) escreva ou telefone ao Bloco de Esquerda e combine a coisa. Já faz lembrar aqueles que vinham ver e ouvir o «Baltazar» ao vivo – isto por mal acomparado e sem ofensa. É claro que só podem ouvir o Louçã, mas não tem importância: os excursionistas que vinham aos Maios promovidos pelo salazarismo também nunca souberam quem era o tal «Baltazar» que lhes pagava a viagem.
Quanto às «Refeições» será servido «uma refeição completa com opção de carne, peixe ou vegetariano», estando os preços claramente determinados: «Lisboa e Setúbal: 7,5 euros; Resto do País: 5 Euros; Estudantes, desempregados e pensionistas: 5 Euros».
Supõe-se que os estudantes e pensionistas abichem os cinco euros contra simples apresentação dos respectivos cartões de identificação, o que não deverá funcionar com os desempregados, que nem um trabalho que se veja conseguem do Fundo de Desemprego, quanto mais uma identificação. Mas de embebidos que estão no espírito do Maio de 68, talvez os bloquistas dêem crédito aos desempregados. Ao menos que alguém lhes dê alguma coisa.
Entretanto, como o «Resto do País» também se banqueteará por cinco euros, os de Lisboa e Setúbal acabam a ser os únicos a alombar com uma espécie de «taxa de capitalidade» de 500 paus, apenas para almoçar. Mistério.
Mas verdadeiramente estranha é esta celebração do Bloco a mobilizar manifestantes pagando-lhes autocarros e automóveis e servindo-lhes refeições a preços de amigo. Tal como é um enigma como é que este «partido das esquerdas», assumidamente sem recursos ou actividades que os produzam, assume uma tal despesa só para mostrar uma plateia a bater-lhe palmas.
Pelos vistos, ao menos aqui o Bloco faz jus à consigna francesa que cita - «Um lugar para cada um num mundo novo»: lugar para si já arranjou, como se vê por esta adaptabilidade aos truques do «mundo novo» que medra por aí...


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