• Jorge Cordeiro

Erro de casting
A presença de Otelo a propósito do 25 de Abril no programa «o corredor do poder» só poderia ter-se traduzido, como se traduziu, num momento lastimável para a data que se pretendia assinalar. A culpa, dir-se-á, não será do próprio mas de quem, malquerendo a Abril, o convidou. Mas Abril e os capitães mereceriam melhor do que aquele exercício de demagogia e irresponsabilidade. Não sendo nada que realmente surpreenda, Otelo esteve igual a si próprio e ao papel que desempenhou: titular de uma demagogia primária e sem limites, narcisista ao ponto de se convencer de ter representado para além do que de facto representou, doentia e perigosamente irresponsável. Em tudo o resto uma torrente de verbalizações sem nexo nem sentido. Deprimente a tentativa de se arvorar em autor, intérprete e realizador da Revolução de Abril: uma inverdade tão grosseira que, aproveitando a confessada ambição ali manifestada de ter sido actor, nos deveria conduzir a concluir, recorrendo à linguagem cinematográfica, estar-se perante um irreparável erro de casting.
Deplorável a sucessão de falsidades e falsificações sobre o processo revolucionário só compagináveis com o papel provocatório que desempenhou contra ele nos momentos cruciais. Deprimente como se prestou a facilitar o achincalhamento pela direita do papel generoso do movimento das forças armadas e do significado maior da intervenção e mobilização populares que lhe sucedeu. Lamentável o rosário de afirmações que só contribuem para denegrir Abril e o seu significado, e para reduzir um período único e maior da história de Portugal, responsável por profundas transformações sociais e económicas que abriram uma janela de esperança e de dignidade ao povo português, a uma sucessão de actos mais ou menos aventureiros a que a personagem reduz, por força da sua própria atitude, a revolução de Abril. E ainda o indisfarçável e intrínseco anticomunismo que o movendo lhe denuncia a sua genuína adesão e admiração pelas políticas dominantes testemunhada na confessada compreensão pela política seguida pelo actual governo, corporizando porventura o que, disfarçado sob a mais oca fraseologia, sempre correspondeu aos seus objectivos e motivações.


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