Um desperdício e uma marcha silenciosa

Filipe Diniz
O 1º de Maio foi, como de costume, magnífico, do lado dos trabalhadores.
Do outro lado suscitou algumas perplexidades. Aqui vão duas delas.
1ª perplexidade. O grandioso desfile em Lisboa, do Martim Moniz à Alameda, foi várias vezes sobrevoado por um helicóptero civil com equipamento de recolha de imagens. Certamente registou magníficas panorâmicas da avenida repleta de uma ponta à outra, mais muitos milhares na Alameda. À hora dos telejornais, não era natural a expectativa em relação a essas imagens? Pois bem, zero, tirando uns breves segundos, sobretudo dos tresmalhados e dispersos activistas no Marquês de Pombal. E a perplexidade é esta: então alugam, certamente por um balúrdio, um «meio aéreo» (como diz a Protecção Civil), e depois desperdiçam? Que rentabilidade é esta? A resposta é simples: para os interesses que movem os grandes meios de comunicação social o que é rentável é ocultar, enquanto puderem, a dimensão real da luta dos trabalhadores.
2ª perplexidade. Foi muito referido que a UGT teria realizado pela primeira vez um desfile de 1º de Maio. O respectivo Secretário-Geral explicou: «já era tempo de a UGT sair à rua, de dar voz aos sindicatos». Nenhum jornalista se interrogou sobre o significado deste «tempo», ou constatou que esta organização demorou 30 anos a fazer essa descoberta. Em primeiro lugar, ao longo destes 30 anos, nem sempre a UGT comemorou o 1º de Maio apenas com piqueniques pimba. Por exemplo, convém nunca esquecer a sua conivência na miserável provocação ao 1º de Maio no Porto em 1982, de que resultou a morte de dois trabalhadores. O «já ser tempo» tem a ver, isso sim, com o renovado fervor de Sócrates pela «concertação social», com a necessidade de ter alguma coisa que se pareça com sindicatos a subscrever a reaccionária revisão do Código do Trabalho que Governo e patronato querem impor.
Entretanto, trazer trabalhadores à rua tem os seus riscos. E o 1º de Maio da UGT foi, em vista disso, silencioso.
«Sindicatos» que temem a voz colectiva dos trabalhadores fazem mais do que calá-los. Amordaçam-nos.


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