IRAQUE… CINCO ANOS

Ângelo Alves (Membro da Comissão Política)
Assinalam-se hoje os cinco anos do início da Guerra do Iraque. Uma guerra de ocupação sustentada por mentiras e manipulações, que levou ao Iraque uma colossal tragédia humana e a ameaça constante de guerra a toda a região do Médio Oriente.

Se um povo tomar nas mãos a defesa da sua soberania dificilmente é derrotado

«Nesta hora difícil, Portugal reafirma o apoio aos seus aliados, com quem compartilha os valores da liberdade e democracia e faz votos de que esta seja uma acção tão rápida quanto possível e que cumpra todos os seus objectivos.» Foi com estas palavras que Durão Barroso, então primeiro-ministro de Portugal, selou o vergonhoso envolvimento do governo português na guerra imperialista. Declarações feitas na sequência dos bombardeamentos a Bagdad da madrugada de 20 de Março e quatro dias após a tristemente célebre cimeira dos Açores que ligou o território português à história de mais um grande crime imperialista.
Passados cinco anos, a história e a realidade evidenciam por si só a carga de hipocrisia e o carácter criminoso de tais declarações. O milhão de vitimas mortais da guerra; os dois milhões de iraquianos que foram obrigados a fugir do seu país; os assassinatos selectivos de grupos específicos da sociedade iraquiana (como os intelectuais); as armas proibidas como o fósforo branco são, entre muitos outros exemplos, testemunhos do cortejo de horrores que é esta ocupação imperialista.
Um crime cometido com o recurso às mais descaradas mentiras. As armas de destruição massiva de Saddam não existiam e o que se veio a revelar é que foram as provas sobre as supostas armas que foram «massivamente» manipuladas e forjadas. Sobre a ligação ao terrorismo, afirmada mil vezes, é agora pelas mãos da própria nomenclatura militar norte-americana que surge mais uma confirmação do que era já há muito conhecido. Não existiam ligações entre o Iraque e a Al-Qaeda, afirma um relatório do Pentágono que a actual administração tentou já em cima da hora e sem sucesso esconder dos norte-americanos e do mundo.
Entretanto os «valores da liberdade e da democracia» referidos por Barroso e o «respeito pelos direitos humanos e uma visão humanista» de que José Sócrates considerou serem os EUA «um exemplo», traduzem-se no recurso à tortura, nos voos da CIA, nas prisões clandestinas espalhadas pelo mundo, na nomeação de um governo fantoche, etc, etc.

Crimes e hipocrisias

De facto a História encarregou-se de demonstrar a essência criminosa desta guerra e sobretudo a sua real razão – a sede de domínio do imperialismo na região do Médio Oriente e claro… o petróleo. Uma realidade mais do que evidente desde o início da guerra e que milhões de pessoas denunciaram nas ruas em todo o Mundo em poderosas jornadas mundiais de luta pela paz e que em Portugal se traduziram, entre outras, na célebre manifestação de 100 mil pessoas no Rossio.
E é importante lembrar, passados cinco anos, que enquanto o povo português se manifestava nas ruas contra a guerra com uma participação dedicada e activa do PCP, o PS, então na oposição, fazia uma manobra de malabarismo político e inventava um encontro de última hora com Durão Barroso para tentar esconder a sua posição de conivência com a guerra como o bem demonstrou a posição do Presidente da República - à data o socialista Jorge Sampaio – de aceitação do envolvimento de Portugal na guerra.
A história da guerra do Iraque é de facto a história da postura criminosa da direita, da hipocrisia da social-democracia e da chamada «comunidade internacional». Depois de espezinhado o direito internacional, o Conselho de Segurança das Nações Unidas viria, numa acção de submissão aos EUA, a aprovar uma resolução de branqueamento do crime imperialista que provou cabalmente que as posições iniciais de algumas potências europeias contra a guerra tinham sido tudo menos posições de princípio. A prová-lo estão hoje as propostas de resolução apresentadas pela maioria do Parlamento Europeu que visam uma maior participação da União Europeia na ocupação do Iraque.
Mas, a história da guerra do Iraque é também a história de resistência do seu povo. Os desejos de Durão Barroso de que «a acção» fosse «tão rápida quanto possível» e que cumprisse «todos os seus objectivos» nunca estiveram tão longe de serem realizados e o povo iraquiano e a sua resistência provam em cada dia que mesmo frente aos mais poderosos exércitos do mundo, mesmo pressionado pela chantagens do terrorismo e da violência sectária, se um povo tomar nas suas mãos a defesa da soberania do seu país, dificilmente é derrotado. E isso é uma grande lição… para o imperialismo e para todos os povos do Mundo. O imperialismo não está derrotado, como o está a provar a abertura de novas frentes de guerra um pouco por todo o mundo, mas o povo iraquiano resiste e com ele somos solidários.


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