Ruídos
Vários anos depois de ter vindo à luz do dia, o maior escândalo de pedofilia de todos os tempos no País continua a arrastar-se pelos tribunais, fazendo o caminho que cedo lhe apontaram os que sabem da poda, ou seja, avançando paulatinamente para o limbo dos casos insolúveis. Se a memória não me falha, o único culpado apurado até à data foi Bibi, o que está muito bem para os padrões vigentes na sociedade e que confirma aquilo que toda a gente sabe, isto é, quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão.
O facto de a lógica nos dizer que às putativas vítimas deviam corresponder inevitavelmente putativos culpados, e que ao Bibi intermediário havia necessariamente de corresponder algum(uns) interlocutor(es) é, para o caso, irrelevante. Como a experiência não se cansa de nos mostrar, a lógica é bastas vezes uma batata, sobretudo quando valores mais altos se levantam.
E tanto assim é que andando ainda os juizes, advogados, réus e testemunhas a puxar lustro às cadeiras dos tribunais, já está na praça pública o Casa Pia II, tão semelhante nos seus contornos ao Casa Pia I que se é levado a pensar que, ao longo destes últimos anos, se alguma coisa mudou foi para que tudo ficasse na mesma.
Das mudanças se pode dizer que serviram para retirar de cena quem não era de cena, ou seja, quem se empenhou na denúncia dos crimes praticados contra crianças e jovens entregues à guarda do Estado. E tanto assim é – ou parece ser – que mal acabou a dança das cadeiras logo novos casos agitaram as águas que se supunham calmas e afinal estariam apenas estagnadas na sua podridão.
Estranho é que a actual responsável da instituição, confrontada com as denúncias públicas da sua antecessora – e embora confirmando delas ter tido conhecimento prévio por deferência da própria –, estranho, dizia, é que a actual responsável tenha dito numa entrevista à televisão pública que essas denúncias sobre a continuação dos abusos sobre crianças e jovens eram «ruído» desnecessário.
Pode escalpelizar-se o significado do termo «ruído» que o resultado, nas presentes circunstâncias, é sempre o mesmo: numa instituição do Estado sob investigação, onde abundam as vítimas e rareiam os criminosos, e onde se persiste nos crimes aparentemente sem receio de consequências, é no mínimo estranho que quem tem a responsabilidade de velar pelo funcionamento da Casa Pia classifique de «ruído» a denúncia dos crimes repetidamente cometidos sob o mais tenebroso dos silêncios.
Pode perceber-se o incómodo da senhora face a tão grave situação, mas não se percebe esta vontade, dir-se-ia generalizada a quantos têm responsabilidades no assunto, em silenciar o que não pode nem deve ficar acobertado sob o manto da impunidade.
A não ser – terrível suspeição – que Bibi tenha esgotado a quota dos imputáveis e só restem agora suspeitos insuspeitáveis, que é como quem diz cidadãos acima de toda a suspeita.
Não há crimes perfeitos, costuma dizer-se. Resta saber se a máxima se aplica aos criminosos com bastante dinheiro no bolso, poder e status na sociedade para eliminar os «ruídos» que é suposto a Justiça ouvir.
O facto de a lógica nos dizer que às putativas vítimas deviam corresponder inevitavelmente putativos culpados, e que ao Bibi intermediário havia necessariamente de corresponder algum(uns) interlocutor(es) é, para o caso, irrelevante. Como a experiência não se cansa de nos mostrar, a lógica é bastas vezes uma batata, sobretudo quando valores mais altos se levantam.
E tanto assim é que andando ainda os juizes, advogados, réus e testemunhas a puxar lustro às cadeiras dos tribunais, já está na praça pública o Casa Pia II, tão semelhante nos seus contornos ao Casa Pia I que se é levado a pensar que, ao longo destes últimos anos, se alguma coisa mudou foi para que tudo ficasse na mesma.
Das mudanças se pode dizer que serviram para retirar de cena quem não era de cena, ou seja, quem se empenhou na denúncia dos crimes praticados contra crianças e jovens entregues à guarda do Estado. E tanto assim é – ou parece ser – que mal acabou a dança das cadeiras logo novos casos agitaram as águas que se supunham calmas e afinal estariam apenas estagnadas na sua podridão.
Estranho é que a actual responsável da instituição, confrontada com as denúncias públicas da sua antecessora – e embora confirmando delas ter tido conhecimento prévio por deferência da própria –, estranho, dizia, é que a actual responsável tenha dito numa entrevista à televisão pública que essas denúncias sobre a continuação dos abusos sobre crianças e jovens eram «ruído» desnecessário.
Pode escalpelizar-se o significado do termo «ruído» que o resultado, nas presentes circunstâncias, é sempre o mesmo: numa instituição do Estado sob investigação, onde abundam as vítimas e rareiam os criminosos, e onde se persiste nos crimes aparentemente sem receio de consequências, é no mínimo estranho que quem tem a responsabilidade de velar pelo funcionamento da Casa Pia classifique de «ruído» a denúncia dos crimes repetidamente cometidos sob o mais tenebroso dos silêncios.
Pode perceber-se o incómodo da senhora face a tão grave situação, mas não se percebe esta vontade, dir-se-ia generalizada a quantos têm responsabilidades no assunto, em silenciar o que não pode nem deve ficar acobertado sob o manto da impunidade.
A não ser – terrível suspeição – que Bibi tenha esgotado a quota dos imputáveis e só restem agora suspeitos insuspeitáveis, que é como quem diz cidadãos acima de toda a suspeita.
Não há crimes perfeitos, costuma dizer-se. Resta saber se a máxima se aplica aos criminosos com bastante dinheiro no bolso, poder e status na sociedade para eliminar os «ruídos» que é suposto a Justiça ouvir.