O relatório

João Frazão
Ao longo dos anos habituámo-nos a ir àquela rua central de Aveiro, paredes meias com um dos mais movimentados centros comerciais da Cidade, onde distribuímos documentos, recolhemos assinaturas, contactamos quem passa, conversamos muito, apelamos à mobilização para as mais diversas acções, ao ritmo da necessidade de resposta à ofensiva quer do Governo, quer da autarquia, quer do patronato, uns e outros, não poucas vezes, de braço dado.
Ao longo dos anos resistimos de forma persistente às ofensivas dos seguranças que insistiam em não ser permitido distribuir papéis naquele sítio, pois a Rua Homem Cristo, que sabem ser pública, fora arranjada por eles e era para a circulação dos «seus» clientes.
De todas as vezes os seguranças esbarraram com a determinação de quem sabe ter razão e está decido a usar os seus direitos e liberdades democráticas, recusando, pela prática, as tentativas para as cercear.
E mesmo das autoridades, que várias vezes acorreram ao local, a pedido do Centro Comercial, os grupos de activistas, só admitiram e obtiveram, com raras excepções, a confirmação de que «os senhores podem estar aqui à vontade.» Obrigado, senhor agente, isso já cá se sabia.
À força de tanto persistir, nas últimas vezes o segurança já não pára, aceitando mesmo um documento: «tome lá, que lhe faz bem a leitura».
Na passada semana, a Revolução de Outubro levou-nos novamente à Rua Homem Cristo para apregoar o Avante!.
Lá vem o Segurança, não me digas que voltamos ao mesmo? «Então o que é que estão aqui a fazer? Estão a vender? Então hoje não é dado? Precisava de um para o relatório».
Este episódio verdadeiro merece dois breves comentários.
O primeiro para assinalar a importância da resistência face à intenção de limitarem o exercício da propaganda política, seja à porta de uma empresa, seja na via pública, seja na escola, seja onde for que a lei e a constituição o proteja.
O segundo para registar o facto de que, 33 anos depois de Abril, é ainda, ou é de novo possível ouvir falar de relatórios sobre as actividades dos comunistas, atitude a exigir uma resposta enérgica de denúncia, mas sobretudo a exigir o reforço da afirmação do Partido, e da sua capacidade de intervenção, única forma de derrotar os relatórios ou de, mesmo contra eles, garantir o direito à Rua.


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