Contas ao conto

Anabela Fino
Dez anos é muito tempo? Depende. Na vida de um mortal pesa (e vai pesando tanto mais quanto mais se avança na idade...); na história de um país dá pano para mangas, sejam curtas ou compridas, conforme as políticas; na odisseia da humanidade é menos do que um grão de areia, pelo menos no respeitante ao passado, que quanto ao futuro sabe-se lá, um dia alguém carrega num botão e Bum!, não sobra nem memória do homem dito sapien capaz de contar e recontar o tempo e de fazer jus à máxima «quem conta um conto acrescenta um ponto», no suave consolo de que se a coisa der para o torto pode sempre invocar que errare humanum est, escapatória latina de quem mete a pata na poça, salvo seja.
Perguntar-se-á o leitor a que despropósito vem este arrazoado sobre o tempo contado em décadas, congeminando talvez com o seu jornal que é fruto de calor em excesso na cabeça do cronista, ou será das notícias que viu à hora do almoço ou do jantar – condição mais do que suficiente para indigestão, azia e indisposições várias susceptíveis de afectar a sanidade mental de qualquer um – já que não há quem aguente tanta desgraça junta, afogados a Sul, incêndios a Norte, ministra da Educação ao centro, taxas de juro em alta, emprego em baixa, nível de vida nem é bom falar, e mais o Bush no Iraque e os ingleses a dar à sola de Bassorá, e o Sócrates na Polis com três anos de atraso, e o milho transgénico que já tem barbas para surpresa de algumas imberbes criaturas, e Portas no YouTube a falar às massas do ciberespaço, e a flexigurança, e as caixas de quotas em dia do Menezes chorão, e as lições do Marcelo, e o gandanoia a debitar à esquerda do PS, e o PS a governar à direita do PSD, e os bééés armados em novos, e Barroso a fazer de conta que nunca foi Durão por causa de umas contas mal contadas, e Cavaco a pregar na Europa a justiça social que enterrou no País, e os gestores nacionais de sucesso, e já me falta o fôlego num parágrafo tão grande e ainda a missa vai no adro.
Pois não senhor, não foi nada disso que suscitou esta décadarreflexão, se assim se pode chamar à arenga, embora ainda esteja para recuperar do pasmo que foi ter deparado, após dias e dias de notícias, reportagens, documentários e filmes correlativos com um debate na televisão pública sobre essa figura da realeza britânica que teve a infelicidade de morrer cedo e que na sua curta vida pouco mais fez do que alimentar com escândalos as páginas dos tablóides.
O momentoso tema, a propósito do décimo aniversário da lamentável morte da senhora, teve honras de horário nobre e presenças ilustres que aparentemente não têm mais nada de importante para debater num país que vai na cauda da Europa e em ritmo acelerado para a segunda ou terceira divisão dos países ditos desenvolvidos.
Seria de esperar que dez anos depois do degradante espectáculo que foi a exploração até à náusea da morte de Diana alguma coisa se tivesse aprendido sobre a responsabilidade dos órgãos de comunicação social na formação da opinião pública. Mas afinal parece que dez anos só é muito tempo para quem não tem tempo a perder com fatuidades, para quem os contos de príncipes e princesas não passam disso mesmo, de contos, que nem chegam para embalar os sonhos de quem tem de deitar contas à vida.


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