A palreação

Henrique Custódio
Em entrevista ao Diário Económico, Mário Soares reanimou esta semana o perfil de esquerda que meticulosamente retoca desde que deixou de praticar activamente a política de direita, nos seus já longínquos tempos de governante.
Primeiro, debica no Governo de José Sócrates, a quem adverte que as pessoas «não protestam só porque os sindicatos as empurram» e que «vêm para a rua porque sentem os seus postos de trabalho em causa ou porque a saúde, educação, justiça e reformas os preocupam», pelo que «chegou a hora de tranquilizar as pessoas».
Depois, branqueia com bonomia a ofensiva brutal de José Sócrates contra a generalidade dos direitos socio-económicos conquistados com a revolução de Abril, aplaudindo nomeadamente «os dois anos de Governo» que «tiveram como objectivo reequilibrar as finanças públicas».
Mas onde Soares se esmerou foi «quanto ao autoritarismo» do Governo de Sócrates, onde «houve episódios desagradáveis, que foram muito empolados», concedendo «que devem ser evitados e corrigidos» mas advertindo, do alto da sua tremenda autoridade de antifascista encartado (mas não muito encarcerado, isso era para os comunistas), que «falar de bufos e denúncias, hoje, é usar terríveis nomes para pequenos abusos – desagradáveis, mas sem significado».
«Pequenos abusos» é como Soares vê, hoje, saneamentos arbitrários na Função Pública perpetrados por chefias despóticas, cuja ética assenta na subserviência às tutelas ministeriais que exibem, elas próprias e sem pudor, uma concepção ditatorial do poder, como flagrantemente se tem evidenciado em diversos ministérios e sob indisfarçável beneplácito de José Sócrates. «Episódios desagradáveis» é como Soares classifica, hoje, o caldo de cultura que esta actuação instalou, em apenas dois anos, na imensa máquina do Estado, onde o poder se transformou num instrumento de pressão, a denúncia anónima em respaldo para castigos administrativos, a bufaria num acto valorizado pelos responsáveis políticos, a crítica ao poder num crime com castigo, o medo de represálias hierárquicas em quotidiano nas repartições, o silêncio na melhor defesa.
Tal como no fascismo, por muito falhada que esteja a memória de Mário Soares. O facto de este caldo de cultura ainda não ter engolido os direitos, liberdades e garantias conquistados com Abril – como Soares também argumenta, classificando de «má fé» e «erro grave» «comparar os dois sistemas» - só mostra uma coisa: que Sócrates ainda não teve tempo nem meios para chegar aí, embora a concentração de poderes policiais e investigatórios que passou para as suas mãos configure um bom esforço para lá chegar, a par das tentativas para governamentalizar a Justiça ou controlar o jornalismo.
Há uma curiosa coincidência, nesta intervenção de Soares, com a publicada há três semanas por Manuel Alegre, que tonitroava estar ali «contra o medo e pela liberdade» para garantir, ao longo de três páginas, que «não é legítimo falar de deriva autoritária» no Governo de Sócrates, já que o medo – que reconhece existir actualmente – não resultará da acção governativa, mas «da inexistência de uma cultura de liberdade individual» em Portugal (portanto, o responsável pelo clima de intimidação promovido pelo Governo é... o próprio «povo português»... Alegre no seu melhor).
Mas não é só coincidência. Mais uma vez estas duas «referências» do PS regressam com a «palreação de esquerda» para absolver a política de direita do seu partido.


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