O banho

Anabela Fino
Os governos de Portugal, Espanha e Itália assinam amanhã em Alicante, Espanha, uma declaração conjunta em que se comprometem a unir esforços na luta contra a pobreza e na aplicação dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) assumidos por 189 estados na Cimeira promovida pelas ONU em 2000. Entre esses objectivos, recorda-se, consta a redução para metade, entre 1990 e 2015, da proporção de população cujo rendimento é inferior a um dólar por dia, e a redução no mesmo período, igualmente para metade, da proporção de população afectada pela fome.
De acordo com o relatório das Nações Unidas sobre este compromisso, divulgado esta segunda-feira, registaram-se progressos: a proporção de pessoas que vivem com menos de 1 dólar por dia baixou de 32 por cento (1.25 mil milhões em 1990) para 19 por cento (980 milhões em 2004).
Os dados da ONU não nos dizem com quanto (sobre)vivem agora os mais pobres dos pobres do mundo, mas o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, alerta para o facto de os benefícios do crescimento económico não estarem a ser repartidos de modo equitativo e acusa os países mais ricos de fugirem às responsabilidades assumidas, já que em 2000 se comprometeram a duplicar a ajuda ao continente africano e o que se verificou foi uma quebra de 2,1% nessa ajuda, entre 2005 e 2006.
Será talvez para minorar tal descalabro que o secretário de Estado da Cooperação, João Cravinho e os seus homólogos Leire Pajin (Espanha) e Patrizia Sentinelli (Itália) promovem amanhã a iniciativa «Submerge-te na luta contra a pobreza», que ocorrerá em simultâneo na Praia de Mal Pás, em Benidorm, na Praia de Carcavelos e no Parque Aquático de Aquafan em Itália.
A ideia, afirma a Lusa, é «envolver turistas de vários países num banho de mar solidário com a pobreza em todo o mundo».
Bonita ideia, esta, e sem dúvida muito útil para os milhões de pobres do mundo – a começar pelos que vivem (?) com menos de 80 cêntimos por dia – que assim ficarão a saber, lá na barriga da miséria onde se encontram, que entre um banho de mar, um martini e um reparador almoço os ricos encontraram tempo para se lembrar deles. E se por perto houver um rádio, uma televisão, uma folha de jornal que seja, ficarão igualmente a saber que esses ricos estão dispostos a «ajudá-los» a subir no patamar da subsistência, a ascender – quem sabe – à inimaginável quantia de um euro e meio, ou mesmo dois por dia, um verdadeiro luxo que lhes permitirá matar a fome, tratar da saúde, investir na educação e logo encarar o futuro com muito maior confiança.
É comovente este desejo dos ricos em «ajudar» os pobres, vítimas como se sabe de uma fatalidade que os fez nascer lá onde se escondem as matérias-primas indispensáveis aos países industrializados, nesses países que a civilização se viu compelida a colonizar e rapinar, onde pela ordem natural das coisas a mão-de-obra é tão barata que seria um desperdício não a aproveitar para o desenvolvimento económico do primeiro mundo.
Nem outra coisa seria de esperar no Mundo Global em que nada se perde e tudo se transforma, como atesta esta luta contra a pobreza em que uns tomam banho de mar solidário e os mexilhões arrotam de satisfação quando o mar bate na rocha.


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