Os trilhos do «escudo» imperialista

Luís Carapinha

É óbvio que os EUA não tencionam abrir mão da sua hegemonia

Em mais um episódio das tensões existentes, NATO e Rússia não chegaram a acordo para a revisão do tratado das Forças Convencionais na Europa (FCE). A sua última versão permanece por ratificar pelos países da Aliança, que colocam a exigência ad hoc de retirada das tropas russas da Geórgia e Moldova. Numa altura em que os EUA instalam bases militares na Roménia e Bulgária e a NATO actualiza as suas metas expansionistas, o desequilíbrio de forças existente na Europa é por demais evidente. Entretanto, na frente estratégica do escudo antimíssil, o secretário da Defesa dos EUA confirmou aquilo que a visita de Bush à Polónia, logo após a reunião do G-8, já tinha indicado: que os EUA prosseguirão os planos de instalação deste sistema ofensivo na Europa, apesar da ambígua proposta de Pútin de partilha do radar no Azerbaijão. Coisa que, complementarmente, os EUA até nem enjeitariam, atendendo à importância que Washington atribui ao Cáucaso.
É óbvio que os EUA não tencionam abrir mão da sua hegemonia e procurarão aproveitar todas as fragilidades do adversário. No contexto da enorme pressão militar, política e económica exercida sobre a Rússia, nenhuma manobra táctica poderá iludir o carácter ofensivo e as profundas implicações deste projecto dos EUA para a segurança e integridade territorial da federação Russa e a própria estabilidade europeia e mundial.

Se o pilar europeu do sistema global antimíssil – que tem como alvo principal não assumido o potencial dissuasor russo – ocupa o centro das atenções, já o seu vector asiático - invocando a pretensa ameaça norte-coreana mas que de facto tem na mira a China -, tem sido praticamente ignorado. Isto quando se sabe que a Austrália planeia juntar-se ao sistema de defesa antimíssil (DAM) que os EUA desenvolvem com o Japão, na perspectiva do seu alargamento a todo o leste asiático. E que os EUA não descartam a possibilidade de incluir Taiwan no sistema de DAM. O que aliás está em sintonia com as prioridades da aliança militar nipo-norte-americana, que definiu aquele território chinês como «objectivo estratégico comum», de reforço da linha geral de «contenção» da China.

A ser implementado, o ambicioso projecto de DAM dos EUA (que num futuro próximo prevê também a militarização do espaço) converter-se-á num poderoso instrumento de dominação global e de modelação de uma ordem internacional favorável ao imperialismo e aos interesses do grande capital transnacional. Tal como hoje a projecção além-fronteiras da NATO ou a emergência das parcerias militares estratégicas dos EUA com o Japão e a Austrália. Não é pois por acaso que a Austrália anunciou a duplicação das suas forças no Afeganistão, onde em resposta à crescente resistência enfrentada se intensificam as atrocidades das forças invasoras contra a população civil. Afeganistão que, por sinal, se afigura também como potencial local para a instalação de um radar antimíssil na Ásia Central... Quanto ao Japão, que se prepara para enviar para o lixo a (violada) constituição pacifista de 1947, a hora é de neo-militarismo e aprofundamento da aliança militar com os EUA.

O caso japonês é certamente paradigmático do quadro regressivo que atravessa as potências centrais do mundo capitalista: a concentração da riqueza e o retorno ao padrão social de aprofundamento de grandes desigualdades sociais e progressão da pobreza, o relançamento da política intervencionista e a glorificação do passado colonialista são aqui alguns dos seus aspectos relevantes.
Uma dinâmica imperialista à escala global que, a não ser travada pela luta dos povos e trabalhadores, conduzirá o mundo a um novo patamar de instabilidade, redobrando as ameaças à paz e à vida no planeta.


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