Nem tudo são rosas no reino de Bush

André Levy
A popularidade de George W. Bush continua alta. Nenhum dos candidatos presidenciais do Partido Democrata reúne ainda convergência política suficiente para constituir uma ameaça eleitoral. E a máquina republicana de angariação de fundos já arrancou a todo o vapor1.
Mas nem tudo são rosas no reino de Bush. A população dos EUA amanhece diariamente com a notícia de soldados mortos no Iraque. Não é de forma alguma claro quando as tropas dos EUA irão ser retiradas. O moral das famílias e dos militares no terreno vai-se erodindo. O Departamento de Defesa anunciou que a presença no Iraque está a custar 3,9 mil milhões de dólares por mês. A ocupação do Afeganistão custa 950 milhões de dólares mensalmente. O Orçamento de Estado, que não inclui estes custos de ocupação, vai criar um déficit recorde. A recessão persiste e a confiança pública na recuperação económica é baixa. E finalmente a Comunicação Social e os representantes no Congresso confrontam o presidente e a sua administração com perguntas sobre a legitimidade das razões invocadas para invadir o Iraque. Enquanto o primeiro-ministro britânico Tony Blair tem sido ferozmente questionado no Parlamento e na arena pública, Bush desfrutou até há pouco de uma protecção garantida pelo clima de medo e patriotismo excessivo que a sua administração tem fomentado.
O desfazer das costuras fez-se em torno de dezasseis palavras pronunciadas pelo presidente durante o discurso do Estado da Nação em Fevereiro de 2003: «O governo britânico possui informação que Saddam Hussein procurou recentemente quantidade significativa de urânio em África.»
Acontece que a alegação de que o Iraque havia tentado comprar urânio na Nigéria é falsa. E, mais grave, existem indicações de que a administração Bush fez uso desta informação falsa para persuadir o Congresso e o povo dos EUA a apoiar a investida militar.
A administração reagiu tentando ignorar as acusações. Depois, alegou desconhecer, na altura do discurso do Estado da Nação, as indicações de que o documento era falso. Quando finalmente admitiu que não deveria ter feito uso dessa alegação, acusou os democratas de revisionismo e jogo político e apontou as culpas aos serviços de inteligência britânicos e finalmente ao director da CIA, George Tenet.

Rede de mentiras

Mas as desculpas só enterraram mais a administração nas suas próprias palavras. A presente rede de mentiras e encobrimento é comparada ao escândalo Watergate e pergunta-se de novo: «Que sabia o presidente, e quando é que o soube?».
Em Fevereiro de 2002, o ex-embaixador Joseph C. Wilson2, foi enviado secretamente à Nigéria, pela CIA e sob pressão do vice-presidente Dick Cheney, para investigar a compra de urânio pelo Iraque. Wilson não encontrou qualquer fundamento para as alegações e apresentou essa conclusão à CIA, ao Departamento de Estado, ao Conselho de Segurança Nacional e ao gabinete do vice-presidente. Wilson veio recentemente a público afirmar que a administração sabia que a alegação era falsa, e que o sabia bem antes da publicação do relatório britânico e do discurso do Estado da Nação.
George Tenet assumiu publicamente a responsabilidade por não ter removido do discurso a alegação sobre o urânio. Mas segundo o senador Dick Durbin, em sessão fechada perante o Comité de Inteligência do Congresso, Tenet identificou o nome de um adjunto da Casa Branca que pressionou a CIA a deixar a alegação no discurso. Tenet tinha conseguido retirar uma referência idêntica num discurso de Bush em Outubro de 2002. Mas as pressões políticas do Pentágono e do Departamento de Defesa sobrepuseram-se às reservas da Comunidade de Inteligência, e a referência emergiu de novo no Estado da Nação.
Abrem-se assim portas para a discussão pública de outras tantas falsidades e exageros públicos sobre a ameaça iraquiana, como a sua capacidade de lançar um ataque químico ou biológico em 45 minutos, a posse de tubos de alumínio para desenvolver armas nucleares, ou ligações ao grupo Al’Qaeda.
Estamos longe de uma inversão de opinião sobre a validade da guerra, ou um questionamento aberto dos seus verdadeiros motivos. Mas a quebra de confiança na administração poderá criar dificuldades aos seus futuros planos de agressão. A 15 de Julho, John R. Bolton, subsecretário de Estado, preparava-se para testemunhar na subcomissão de Relações Internacionais da Casa de Representantes sobre a ameaça criada pelo desenvolvimento de armas biológicas, químicas e nucleares pela Síria. Segundo a Agência Knight Ridder, a CIA levantou fortes objecções à avaliação da administração. A exposição de Bolton foi subsequentemente adiada até Setembro. Talvez o momento de lançar uma nova campanha de guerra seja de novo após o Verão.
________

Bush não terá certamente oposição na corrida das primárias do Partido Republicano, mas a sua campanha prevê colher mais de 170 milhões de dólares.

2 Este diplomata de carreira havia sido o mais alto oficial dos EUA em Bagdad em 1990, merecendo louvores do então Presidente Bush.


Mais artigos de: Internacional

Crise em Londres e Washington

O alegado suicídio de um cientista britânico e a doença misteriosa que afecta as tropas dos EUA em Bagdad estão a embaraçar os governos de Blair e Bush.

Libéria a ferro e fogo

ONU apela aos fim dos confrontos na Libéria, que nos últimos dias provocaram já centenas de mortos entre a população. Os EUA estão prontos a intervir.

Ao sabor do capital

A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FISCCVCV) alertou, quinta-feira passada, em Genebra, para a selectividade mediática da ajuda humanitária.A denúncia foi feita durante a apresentação do «Relatório Mundial sobre Catástrofes» e refere que «há uma crescente tendência para os...

PC de Cuba apela à solidariedade

Em nota enviada aos partidos comunistas e outras organizações de esquerda de todo o mundo, o Comité Central do Partido Comunista de Cuba denuncia os mais recentes atropelos ao direito internacional praticados pelas autoridades norte-americanas em relação aos cinco prisioneiros cubanos detidos nos EUA.«Às terríveis...

A justiça da «guilhotina»

Os EUA concentram dois terços da execuções de menores de idade registadas nos últimos dez anos, com um recorde acumulado de 12 execuções num total de 19 ocorridas, entre 1994 e 2002, em setenta países.A denúncia foi feita sexta-feira pela Amnistia Internacional (AI), que revela ainda que os norte-americanos são os únicos...

Comunista assassinado na Colômbia

Um grupo de paramilitares matou, na semana passada, o dirigente do Partido Comunista Colombiano, Alberto Márquez, que se encontrava em sua casa, no estado de Tolima.Do ataque das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC) à residência de Márquez, resultou também a morte do seu segurança pessoal, e o ferimento, considerado...