Efeitos colaterais

Crise em Londres e Washington

O alegado suicídio de um cientista britânico e a doença misteriosa que afecta as tropas dos EUA em Bagdad estão a embaraçar os governos de Blair e Bush.

Vários soldados começaram a apresentar sintomas misteriosos

A morte de David Kelly, o especialista em armas biológicas que trabalhava para o Ministério da Defesa britânico e que o governo apontou como «principal fonte» da reportagem da BBC que acusou o executivo de «apimentar» o dossier sobre o Iraque, introduzindo-lhe informações falsas, está a causar uma tempestade política na Grã-Bretanha.
A BBC já confirmou ter baseado o seu trabalho nas informações Kelly, cujo corpo sem vida foi encontrado na passada sexta-feira. O director de informação da estação, Richard Sambrook, fez o anúncio no domingo, reafirmando a sua convicção de ter interpretado e reproduzido correctamente as informações obtidas durante uma série de entrevistas.
Sambrook disse ainda que a BBC dera a Kelly a garantia de confidencialidade e que «lamenta profundamente» que o envolvimento do especialista na reportagem tenha terminado em tragédia.
Aparentemente, Kelly suicidou-se, cortando o pulso esquerdo.
O caso está a provocar uma crise sem precedentes no governo britânico.
Em declarações ao «Independent», o ex-ministro dos Assuntos Parlamentares, Robin Cook, que deixou governo devido à crise iraquiana, advoga a abertura de um inquérito judicial não apenas à morte do perito governamental, mas também sobre os fundamentos que levaram o país a participar na guerra. Glenda Jackson, ex-deputada trabalhista, foi mais longe e exigiu a demissão de Blair.
Entretanto, a ex-ministra Clare Short acusou segunda-feira o governo britânico de estar por detrás dos ataques que responsabilizam a BBC pelo alegado suicídio de Kelly. «Faz tudo parte de uma diversão da verdadeira questão, que é saber como entrámos na guerra contra o Iraque», disse à BBC-rádio a antiga ministra. Short demitiu-se em Maio alegando sentir-se «enganada» pelo chefe do governo.

Doença misteriosa

Enquanto isso, no Iraque, as forças norte-americanas estão a braços com um novo problema. Para além dos atentados e das baixas quase diárias, sabe-se agora que as tropas acantonadas nas vizinhanças do aeroporto de Bagdad estão a ser afectadas por uma estranha doença.
Segundo uma fonte militar próxima da NATO, não identificada, citada pelo jornal Saudi Al-Watan, de 17 de Julho, vários soldados começaram a apresentar sintomas misteriosos de febre, comichões, cicatrizes e pontos castanho escuros na pele.
A mesma fonte garantiu que três dos soldados com os referidos sintomas não reagiram ao tratamento administrado em hospitais no Iraque e foram evacuados para Washington.
Sublinhando existir um black-out informativo por parte dos oficiais americanos a fim de esconder esta situação do público, a fonte revelou que os peritos da NATO admitem que os sintomas e a doença se devem à exposição directa às fortes radiações das bombas B-2 utilizadas no ataque ao aeroporto de Bagdad.
Os peritos da NATO, revela o jornal, terão medido os níveis de poluição radioactiva no Iraque e confirmado a existência de uma elevada radioactividade.
Esta informação parece confirmar uma outra, publicada em 25 de Abril pelo British Observer, citando fontes militares, segundo a qual as munições e bombas utilizadas pelas tropas americanas e britânicas durante a invasão do Iraque eram cinco vezes superiores ao número utilizado durante a Guerra do Golfo de 1991.
O Pentágono, recorda-se, admitiu ter bombardeado o Iraque, nesse ano, com cerca de 350 toneladas de urânio empobrecido (depleted uranium), o que fez aumentar de forma assustadora o número de casos de cancro, leucemias e mal-formações congénitas entre os iraquianos.

Xiitas contra a ocupação

Milhares de xiitas manifestaram-se domingo, em Najaf, a «cidade santa» do Sul do Iraque, contra a presença das tropas norte-americanas no país.
Na véspera, as forças invasoras haviam cercado a casa do dirigente religioso, Sayyed Moqtada Sadr, o que enfureceu a população, já descontente com a inclusão, no recém formado Conselho de Governo Provisório, de 13 xiitas, na sua maioria exilados desconhecidos na comunidade e no país e acusados de não passarem de fantoches às ordens de Washington.
Apesar de as autoridades religiosas terem apelado para que a manifestação fosse pacífica, alguns manifestantes atacaram os soldados norte-americanos à pedrada. «Abaixo os EUA e a arrogância americana» foi uma das palavras de ordem mais ouvidas.
As regiões xiitas pobres eram até agora considerada pelos ocupantes como as mais seguras.
Ainda no domingo, mais dois soldados americanos foram mortos e um outro ficou ferido perto de Tall Afar, a oeste de Mossul, no norte do Iraque, quando o comboio em que viajavam foi atacado. Estas baixas elevaram para 151 o número de soldados americanos mortos desde o início da guerra, em 20 de Março, mais quatro do que na Guerra do Golfo, em 1991.


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