A mudança

Henrique Custódio
O duelo estava marcado para a Assembleia da República. Ali se sentavam, na manhã da passada segunda-feira, os defensores e os opositores da «opção Ota» para a construção do novo aeroporto de Lisboa, todos prontos a esgrimir argumentos técnicos, enquanto a generalidade dos jornalistas aguardava a concretização do anúncio, prometido e afiançado pelo ministro Mário Lino para esse dia e lugar, do lançamento do concurso público internacional que iria concretizar a «opção irreversível» da construção na Ota. Sobe o ministro ao palanque do colóquio parlamentar e, mal abre a boca, estoira a bomba: já não há concurso internacional e vão realizar-se «novos estudos» para avaliar a «opção Alcochete».
Para que não restem dúvidas, o ministro acrescenta que o Governo mandatou o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) para, nos próximos seis meses, analisar a viabilidade da alternativa Alcochete e proceder a uma avaliação comparada com a Ota, garantindo igualmente que «o Governo continuará sem tomar qualquer decisão de efeitos irreversíveis».
Que aconteceu, para tão repentina e radical mudança?
«Aconteceu» um estudo promovido pelo presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), Francisco Van Zeller, no mesmo dia entregue formalmente, pelo próprio, ao Presidente da República, Cavaco Silva., onde se demonstrava e defendia as vantagens da carreira de tiro de Alcochete, na Margem Sul do Tejo, para a construção do novo aeroporto de Lisboa.
Foi o suficiente para ministro Mário Lino perder toda a intransigência e arrogância com que, nos últimos meses, havia transformado a «opção Ota» numa fatalidade nacional, encurralando-se a si próprio e ao Governo em garantias absolutas de que não havia outra opção possível (nomeadamente com a famosa frase «Margem Sul jamais, jamais!») e em metáforas delirantes para denegrir as opções a Sul («a Margem Sul é um deserto»).
É claro que a generalidade dos jornais, rádios e televisões se aplicaram a valorizar a intervenção da CIP, alguns quase transformando esta agremiação do grande patronato num insólito Robin dos Bosques que, em generosa expedição, pusera na linha a obstinação governamental em impor a «solução Ota».
Francisco Van Zeller, aliás, não se coibiu de declarar que o estudo da CIP «foi combinado com o Primeiro-Ministro» há três meses e que este «se comprometeu que não iria tomar entretanto posições irreversíveis» em relação à Ota, arrogância patronal que «fonte do gabinete do Primeiro-Ministro» desmentiu atrapalhadamente com a «garantia» de que Sócrates «se limitou a tomar conhecimento da realização do estudo». Pois sim.
Entretanto, o que ressalta gritantemente nesta radical mudança do Governo em relação ao novo aeroporto de Lisboa é a docilidade com que o «determinado» José Sócrates cumpriu as «sugestões» dos patrões da CIP nesta matéria, o que apenas adensa as suspeitas, que por aí circulam, de que também a «opção Ota» teve tão apressada e inflexível promoção governamental para satisfazer outros lóbies, agora pelos vistos ultrapassados pelos que se acovilam por trás da CIP...
Seja como for, ainda bem que o novo aeroporto vai ser decidido através de estudos e análises comparados. Agora, há que exigir que esse trabalho seja exaustivo e a decisão exclusivamente em função do interesse nacional.


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