Sangue imperial

Jorge Cadima

«Uma maquiavélica operação de natureza e objectivos sombrios»

O fim de 2006 fica marcado pelo espectáculo mediático da execução de Saddam Hussein. Robert Fisk no Independent (30.12.06), faz comentários relevantes numa peça com o título «Um ditador criado e depois destruído pela América»: «Quem encorajou Saddam a invadir o Irão em 1980, naquilo que foi o seu maior crime de guerra, do qual resultou a morte de um milhão e meio de seres? E quem lhe vendeu as armas químicas com que encharcou o Irão e os Curdos? Fomos nós. Não admira que os Americanos, que controlaram o estranho julgamento de Saddam, tenham proibido qualquer referência a estes factos nas acusações». Tal como nos filmes, a mafia anglo-saxónica ao serviço do grande capital não hesita em sacrificar os serventuários de ontem quando deixam de servir os seus interesses, até para servir de exemplo. Osama bin Laden, Gulbuddin Hekmatyar e o General Noriega sabem-no bem. Mas há questões estranhas rodeando esta execução.

Porquê é que os EUA escolhem o «dia do sacrifício» (Id-ul-Adha), quando milhões de muçulmanos estão em peregrinação em Meca, para executar a sentença de morte? Cheira ainda mais a esturro o vídeo que circula na Internet com a cena completa da execução, e onde se ouvem os carrascos gritar três vezes o nome «Moqtada». Moqtada el-Sadr é um dirigente religioso e político xiita, que exige a retirada norte-americana do Iraque e cujas forças já estiveram várias vezes em conflito armado com as tropas dos EUA, a quem acusam repetidamente de cometer massacres para fomentar uma guerra civil entre iraquianos (e.g., Times online, 27.3.06, Times of Índia, 13.3.06). Filho de um dirigente religioso alegadamente assassinado por Saddam, poderá ter razões para um ajuste de contas e a sua real natureza é uma incógnita. Mas será crível que os EUA entreguem uma operação desta importância a uma força que um relatório oficial do Pentágono de há poucos dias considerou «o maior perigo» no Iraque (Los Angeles Times, 19.12.06)? Quatro dias antes da execução, o principal dirigente do movimento de Sadr na cidade de Najaf, acusado de actos de resistência armada às forças de ocupação, foi assassinado por tropas dos EUA em sua casa (France Presse, 27.12.06).

É evidente que os EUA quiseram transmitir a ideia da responsabilidade de el-Sadr na morte de Saddam. Multiplicam-se acusações várias contra xiitas e iranianos de serem os responsáveis pela execução. Ganha contornos uma maquiavélica operação de natureza e objectivos sombrios. A execução de Saddam parece ser mais um passo para o objectivo desde há muito visado pelo imperialismo: transformar a resistência popular iraquiana contra as forças de ocupação numa carnificina entre iraquianos. Dividir para reinar. Vale a pena relembrar o artigo da revista Newsweek de 14.1.05 anunciando que os EUA iriam criar esquadrões da morte (a «opção El Salvador») no Iraque para enfrentar o «pântano crescente» em que se atolavam. Desde então, o pântano não parou de sugar as forças do imperialismo, e uma sua derrota humilhante e de impacto mundial é hoje uma possibilidade real. A oposição à guerra tornou-se maioritária nos próprios EUA. A «nova estratégia» dos EUA para o problema parece ser a de um banho de sangue ainda maior, mas com mais sangue iraquiano. E talvez iraniano, sírio, libanês e palestino.

Pode estar em curso uma operação de enorme envergadura. Algum dia se saberá o que esteve por detrás da visita surpresa do vice-presidente americano Cheney à Arábia Saudita em Novembro, seguida da repentina demissão e saída de Washington do Embaixador saudita. Esse medieval aliado americano colocou-se na prática ao lado de Israel no início da guerra contra o Líbano. Para além dos factores culturais ou religiosos, existem decisivos interesses de classe. Que tendem a unir os exploradores de todo o mundo contra os povos. Mas a reacção árabe faria bem em pensar duas vezes antes de se associar a uma aventura israelo-americana. Se não for vítima da revolta dos seus próprios povos, poderá ver o fim dos seus dias numa forca americana.


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