Crucial
Já perdi a conta ao número de vezes que ouvi os sucessivos presidentes da República afirmarem, nas suas tradicionais mensagens de Ano Novo, que o ano a começar é «crucial» para o futuro do País. Quer isto dizer pelo menos duas coisas: primeiro, que os presidentes mudam mas o discurso não varia; segundo, que o futuro do País continua adiado.
A mensagem para 2007 não fugiu à regra. Cavaco Silva, esquecido já dos longos anos em que (des)governou Portugal, implementando políticas que ficaram na história como paradigma da destruição do sector empresarial do Estado, surge-nos agora na pele de primeiro magistrado da nação, hirto e sério, dizendo ser «crucial para o futuro» obter em 2007 «progressos claros» em «três grandes domínios», a saber, desenvolvimento económico, educação e justiça.
Para obter tais desideratos, segundo Cavaco, é necessários que os «verdadeiros agentes da mudança» – os empresários – cumpram o seu papel investindo mais e melhor, aumentando a produtividade e apostando na inovação e na qualidade. Para que tal seja possível, assevera, importa que o Estado não seja «um obstáculo», antes trate de «favorecer a competitividade das empresas» e de contribuir para que «os cidadãos desenvolvam as suas potencialidades».
No domínio da educação, o PR considera que «a qualidade do ensino, o estímulo à excelência e o combate sem tréguas ao insucesso e abandono escolar têm que ter sinais positivos já em 2007»; e quanto à justiça, saúda a redução de «alguma crispação» existente no sector e pede aos «protagonistas» um «contributo activo» para a «melhoria do funcionamento do sistema de justiça». Sobre as políticas que deverão dar tais frutos, nem uma palavra.
Espremendo a mensagem, o sumo não é muito, mas o sabor que deixa é por demais amargo: o desenvolvimento económico deve ser deixado aos privados, com o Governo a aplanar o caminho, e o resto são avisos à navegação para que não se faça muitas ondas.
Quanto aos portugueses, para quem cada ano é sempre «crucial» embora regra geral seja mais do mesmo, isto é, angustiante, com menos qualidade de vida, com mais sacrifícios, com menos direitos, com mais incertezas, quanto aos portugueses, dizia, podem ficar descansados que Cavaco partilha da «insatisfação» de quem quer «um país melhor», pelo que será «exigente quanto aos resultados».
Dizendo acreditar que Portugal vive «um tempo de esperança», Cavaco terminou a sua comunicação com uma advertência: «é fundamental que haja um clima de confiança e estabilidade que favoreça o desenvolvimento económico e social, credibilize as instituições e permita a realização das reformas inadiáveis».
Trocando por miúdos, nada de lutas, nada de contestações, nada de protestos. Haja esperança, fé e caridade, que a «cooperação estratégica» de Belém com S. Bento está de pedra e cal, com os respectivos inquilinos a dedicar, em cada quadra festiva, atentos olhares ao «sofrimento dos menos afortunados», que sendo cada vez mais passam cada vez menos despercebidos. Por eles se multiplica as sopas dos pobres, os natais dos hospitais, as galas de caridade, os bancos alimentares, a caridade cristã, e até os programas de televisão ao estilo do regime fascista. Coisas todas muito «cruciais» para o futuro do país, como nos irão dizer daqui a um ano, se até lá não despertar a consciência colectiva de que crucial mesmo é mudar de política.
A mensagem para 2007 não fugiu à regra. Cavaco Silva, esquecido já dos longos anos em que (des)governou Portugal, implementando políticas que ficaram na história como paradigma da destruição do sector empresarial do Estado, surge-nos agora na pele de primeiro magistrado da nação, hirto e sério, dizendo ser «crucial para o futuro» obter em 2007 «progressos claros» em «três grandes domínios», a saber, desenvolvimento económico, educação e justiça.
Para obter tais desideratos, segundo Cavaco, é necessários que os «verdadeiros agentes da mudança» – os empresários – cumpram o seu papel investindo mais e melhor, aumentando a produtividade e apostando na inovação e na qualidade. Para que tal seja possível, assevera, importa que o Estado não seja «um obstáculo», antes trate de «favorecer a competitividade das empresas» e de contribuir para que «os cidadãos desenvolvam as suas potencialidades».
No domínio da educação, o PR considera que «a qualidade do ensino, o estímulo à excelência e o combate sem tréguas ao insucesso e abandono escolar têm que ter sinais positivos já em 2007»; e quanto à justiça, saúda a redução de «alguma crispação» existente no sector e pede aos «protagonistas» um «contributo activo» para a «melhoria do funcionamento do sistema de justiça». Sobre as políticas que deverão dar tais frutos, nem uma palavra.
Espremendo a mensagem, o sumo não é muito, mas o sabor que deixa é por demais amargo: o desenvolvimento económico deve ser deixado aos privados, com o Governo a aplanar o caminho, e o resto são avisos à navegação para que não se faça muitas ondas.
Quanto aos portugueses, para quem cada ano é sempre «crucial» embora regra geral seja mais do mesmo, isto é, angustiante, com menos qualidade de vida, com mais sacrifícios, com menos direitos, com mais incertezas, quanto aos portugueses, dizia, podem ficar descansados que Cavaco partilha da «insatisfação» de quem quer «um país melhor», pelo que será «exigente quanto aos resultados».
Dizendo acreditar que Portugal vive «um tempo de esperança», Cavaco terminou a sua comunicação com uma advertência: «é fundamental que haja um clima de confiança e estabilidade que favoreça o desenvolvimento económico e social, credibilize as instituições e permita a realização das reformas inadiáveis».
Trocando por miúdos, nada de lutas, nada de contestações, nada de protestos. Haja esperança, fé e caridade, que a «cooperação estratégica» de Belém com S. Bento está de pedra e cal, com os respectivos inquilinos a dedicar, em cada quadra festiva, atentos olhares ao «sofrimento dos menos afortunados», que sendo cada vez mais passam cada vez menos despercebidos. Por eles se multiplica as sopas dos pobres, os natais dos hospitais, as galas de caridade, os bancos alimentares, a caridade cristã, e até os programas de televisão ao estilo do regime fascista. Coisas todas muito «cruciais» para o futuro do país, como nos irão dizer daqui a um ano, se até lá não despertar a consciência colectiva de que crucial mesmo é mudar de política.