Elementar, meus caros

Anabela Fino
A 8 de Dezembro de 1991, os presidentes da Rússia, Ucrânia e Bielorússia encontraram-se no bosque de Bielovezh (Bielorússia) e firmaram o acordo que ditou a liquidação formal da União Soviética. Aplaudido pelas potências ocidentais como expoente máximo da defesa da democracia, o acordo de Bielovezh fez tábua rasa da vontade popular expressa em referendo a 17 de Março de 1991, que inequivocamente se pronunciou pela manutenção da URSS.
Quinze anos passados, um inquérito levado a cabo pelo consórcio internacional «Monitor Euroasiático» revela que 68 por cento dos russos, 59 por cento dos ucranianos e 52 por cento dos bielorussos não só lamentam o desaparecimento da URSS como consideram que o processo poderia ter sido evitado. Bem diferente é a posição do ex-presidente Boris Yeltsin, um dos mais destacados coveiros da União Soviética, que entrevistado no fim-de-semana pela Ros­si­is­kaya Ga­zeta reafirmou a convicção de que era «inevitável» a transformação da URSS na CEI (Comunidade de Estados Independentes).
Afastado do poder sem honra nem glória, após uma sucessão de escândalos, Yeltsin não parece incomodado com o facto de, segundo o estudo do «Monitor Euroasiático», 51 por cento dos russos, 45 dos ucranianos e 36 por cento dos bielorussos afirmarem que votariam favoravelmente num eventual referendo sobre a unificação das antigas repúblicas numa nova união.
O curioso do resultado destes estudos, levados a cabo por institutos sociológicos locais – Novak, de Minsk; CEROP e TSIRKON, da Rússia; e Research&Branding Grup, de Kiev – e com uma mostra representativa de 1100 a 2000 pessoas, é que traduzem um desencanto pouco consentâneo com a alegada ânsia de engrossar as hostes do maravilhoso mundo capitalista.
Talvez seja por isso que, apesar de terem deixado de ser uma «ameaça» segundo os cânones do Ocidente capitaneado pelos Estados Unidos, os países de Leste em geral e a Rússia em particular continuem a ser olhados com a suspeição do tempo da caça às bruxas. Exemplo paradigmático é o estranho caso da estranha morte do antigo espião russo morto em Londres com a substância radioactiva que dá pelo nome de Polónio 210, ao que tudo indica quando se entregava a intensa actividade nada inocente de compra e venda de «armas sujas» para fins antidemocráticos. Uma oportuna carta acusando Putin, alegadamente escrita às portas da morte, bastou para alimentar o papão russo.
A trama está por esclarecer e as ligações perigosas são mais que muitas, mas o dedo acusador aponta para os suspeitos do costume, não vá o diabo tecê-las e o feitiço ainda se vire contra o feiticeiro.


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