Todos menos um
«Pela primeira vez, estamos perante uma reforma que responde de forma coerente, sensata e sustentável ao problema do envelhecimento da população portuguesa». As palavras são do primeiro-ministro, José Sócrates, na cerimónia que a 10 de Outubro marcou a assinatura do acordo de concertação social para a reforma da Segurança Social, no Centro Cultural de Belém.
Sócrates manifestou-se particularmente satisfeito com o acordo, que na óptica do Governo «visa salvar a Segurança Social, não apenas no curto prazo, mas também a médio e a longo prazo», porque «tem alcance estratégico».
O dito alcance, pelo que se deduz, foi conseguido através da introdução do «factor esperança de vida» no cálculo das pensões e na idade da reforma, o que concitou o apoio das confederações patronais da Agricultura, do Comércio, do Turismo (CTP), da Confederação da Indústria Portuguesa, e da sempre disponível UGT, que assina tudo o que nega mas nunca se nega a assinar.
Ouvindo Sócrates, os portugueses devem ter respirado de alívio por enfim se ter resolvido um «problema», embora não deixe de ser curioso que um chefe de governo dito socialista, de um país dito democrata, considere o aumento da esperança de vida dos seus concidadãos um «problema» e não um avanço civilizacional.
Não menos curioso é o facto de a solução para o tal «problema» ser o aumento forçado dos anos de trabalho e a redução das pensões de reforma, o que sem dúvida constitui um retrocesso civilizacional.
Não vão longe os tempos – foi logo a seguir à Revolução de Abril – em que Portugal reconhecia o direito inalienável dos seus cidadãos a uma velhice condigna, com isso significando o direito ao merecido descanso, ao bem-estar, à assistência necessária a uma vida que perdura para além da força de trabalho. Outros tempos, em que se acreditava que a democracia era sinónimo de justiça social, em que se cria que avanço científico-técnico era produção de mais riqueza, e que produção de mais riqueza era equivalente a uma vida melhor para todos.
Um mundo de enganos, claro está, que capitalismo e democracia não rimam em ponto de nenhum do planeta, embora por vezes possa parecer que estão em sintonia. Para que uns poucos sejam muito ricos é necessário que outros muitos sejam muito pobres – eis a verdade que nenhum manto da demagogia consegue esconder.
«Este acordo dá expressão à reforma mais ambiciosa e profunda no sistema público de Segurança Social», disse Sócrates. Esqueceu-se foi de dizer que essa reforma era desejada por todos menos um: o povo que hoje está na rua a clamar Basta!
Sócrates manifestou-se particularmente satisfeito com o acordo, que na óptica do Governo «visa salvar a Segurança Social, não apenas no curto prazo, mas também a médio e a longo prazo», porque «tem alcance estratégico».
O dito alcance, pelo que se deduz, foi conseguido através da introdução do «factor esperança de vida» no cálculo das pensões e na idade da reforma, o que concitou o apoio das confederações patronais da Agricultura, do Comércio, do Turismo (CTP), da Confederação da Indústria Portuguesa, e da sempre disponível UGT, que assina tudo o que nega mas nunca se nega a assinar.
Ouvindo Sócrates, os portugueses devem ter respirado de alívio por enfim se ter resolvido um «problema», embora não deixe de ser curioso que um chefe de governo dito socialista, de um país dito democrata, considere o aumento da esperança de vida dos seus concidadãos um «problema» e não um avanço civilizacional.
Não menos curioso é o facto de a solução para o tal «problema» ser o aumento forçado dos anos de trabalho e a redução das pensões de reforma, o que sem dúvida constitui um retrocesso civilizacional.
Não vão longe os tempos – foi logo a seguir à Revolução de Abril – em que Portugal reconhecia o direito inalienável dos seus cidadãos a uma velhice condigna, com isso significando o direito ao merecido descanso, ao bem-estar, à assistência necessária a uma vida que perdura para além da força de trabalho. Outros tempos, em que se acreditava que a democracia era sinónimo de justiça social, em que se cria que avanço científico-técnico era produção de mais riqueza, e que produção de mais riqueza era equivalente a uma vida melhor para todos.
Um mundo de enganos, claro está, que capitalismo e democracia não rimam em ponto de nenhum do planeta, embora por vezes possa parecer que estão em sintonia. Para que uns poucos sejam muito ricos é necessário que outros muitos sejam muito pobres – eis a verdade que nenhum manto da demagogia consegue esconder.
«Este acordo dá expressão à reforma mais ambiciosa e profunda no sistema público de Segurança Social», disse Sócrates. Esqueceu-se foi de dizer que essa reforma era desejada por todos menos um: o povo que hoje está na rua a clamar Basta!