Piroseira maligna

Leandro Martins
Não sei se já repararam que, à medida que a vida se vai tornando mais difícil para os portugueses em geral – muito particularmente para quem trabalha ou quer trabalho e não tem, ou quem já teve trabalho e fica à míngua de pensões miseráveis – a piroseira aumenta no País. Abundam, a par de suplementos e de revistas de «negócios», cada vez mais as revistas do jet-set, que misturam pornografia disfarçada de erotismo. Os jornais degradam-se em sensacionalismo, a música popular degenera em pimbalhada, as telenovelas invadem os horários dos canais televisivos com o rol de dramalhões de trazer por casa, ao mesmo tempo que pululam as estrelas de usar e deitar fora após bem espremidas pelas produções. No cinema – quase exclusivamente americano, com a cor-de-rosa mais carregada do romance escabroso ou o vermelho sanguíneo dos filmes de «acção» – o panorama é negro. E que dizer da literatura, onde viceja a obra light e a novela hermética e mística, quase única produção a ser entusiasticamente divulgada pela crítica de fim-de-semana?
Ao jeito do pão e circo da decadência do império romano, a coisa revela-se também aqui, quase dois mil anos depois. Só que o pão é menos e o circo, mesmo com as mais ferozes consequências, é talvez maior. Para gáudio das audiências, servem-nos diariamente as matanças de infiéis ao credo imperial de Bush que traça, com o auxílio dos seus aliados, os novos mapas de domínio planetário.
No senado, representado pelos arautos da privatização e pelos defensores dos despedimentos para melhorar a economia, levantam-se vozes contra os partidos e contra a República... Afinal num «compromisso» contra Portugal de Abril.
Enquanto isso, na tradição que Soares havia inaugurado de se passear pelo mundo às costas de uma tartaruga ou no dorso de um elefante, o Sócrates da nossa época passa as férias na estranja, em safaris em tecnicolor, enquanto o País vai ardendo. E o Presidente da República vai em, peregrinação a Espanha, dar abraços ao rei e felicitar a mediática princesa Letícia, assegurando assim as simpatias do invasor para a próxima geração.
Roma está quase a arder.


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