Fingimentos
A campanha do PCP em defesa dos serviços públicos, que há meses alerta os portugueses para o óbvio – «Público é de todos; privado é de alguns» – mereceu esta semana um desusado destaque nas páginas do Diário de Notícias através da crónica de João César das Neves (JCN), professor universitário, que achou por bem gastar o seu latim a desancar no referido slogan.
A afirmação «é claramente falsa», diz JCN, esforçando-se por demonstrar que a única diferença entre público e privado é a excelência dos serviços prestados, determinante, na sua tese, para a sobrevivência e sucesso deste último e irrelevante para o primeiro, já que a este apenas importará satisfazer interesses corporativos.
Segundo JCN, o privado – seja ele qual for – depende da satisfação do cliente, pelo que embora prosseguindo o lucro não pode perder de vista a qualidade. A atestá-lo, diz, estão empresas como a Coca-Cola, Microsoft, Shell e outros gigantes, que «jogam todos os dias a sua sobrevivência no mercado». Assevera ainda JCN que os serviços públicos não são tão desinteressados como pode parecer à primeira vista, garantindo que basta ver os telejornais para perceber que «enquanto a cobiça das empresas é disfarçada, a dos funcionários vem apregoada nas manifestações por mais salários e reivindicações públicas de regalias», pelo que lícito se torna concluir – e JCN conclui – que «o desprendimento anda muito omisso».
Assim sendo, remata JCN, o que está em causa no slogan do PCP é algo que «todos sabem e alguns fingem ignorar» – título ao artigo – ou seja, que o PCP «deixou de ser um partido de utentes, que sabe bem que o público não é de todos, para passar a ser dominado pelos interesses das corporações que vivem de manter essa ilusão».
Voilá!
Deixando de lado a simpatia de JCN pelos privados; fazendo de conta que até nem sabemos qual o resultado da privatização de serviços públicos elementares como os transportes ou a saúde; dando de barato o facto de o Estado suportar, com o dinheiro dos contribuintes, as muito privadas alcavalas que sustentam a «dinâmica» empresarial, seja através dos chamados «incentivos» ou de outras benesses que não impedem a todo o momento o encerramento e deslocalização de empresas e o permanente crescimento do desemprego; passando por cima do facto de nesta falsa dicotomia público-privado haver cada vez menos possibilidade de escolha, porque para engordar o segundo se liquida o primeiro; deixando de parte tudo isto – e o mais que aqui não cabe por falta de espaço – temos que, para JCN, não só os empresários privados e os trabalhadores públicos se situam ao mesmo nível, equiparando-se portanto a sede de lucro com a reivindicação de direitos laborais, como ainda por cima o público sairá caro porque pago por todos os que pagam impostos e o privado sairá barato na medida em que só o cliente pagará a factura, pelo que o PCP não estará a defender os interesses dos utentes.
Comovente preocupação esta de JCN, que na sua douta sabedoria «esqueceu» o elementar, a saber, que o PCP não é um partido de utentes, é um partido de classe. Que incomoda, e muito, o capital, o que só mostra a justeza da sua política. Isto sim, é o que todos sabem e alguns fingem ignorar.
A afirmação «é claramente falsa», diz JCN, esforçando-se por demonstrar que a única diferença entre público e privado é a excelência dos serviços prestados, determinante, na sua tese, para a sobrevivência e sucesso deste último e irrelevante para o primeiro, já que a este apenas importará satisfazer interesses corporativos.
Segundo JCN, o privado – seja ele qual for – depende da satisfação do cliente, pelo que embora prosseguindo o lucro não pode perder de vista a qualidade. A atestá-lo, diz, estão empresas como a Coca-Cola, Microsoft, Shell e outros gigantes, que «jogam todos os dias a sua sobrevivência no mercado». Assevera ainda JCN que os serviços públicos não são tão desinteressados como pode parecer à primeira vista, garantindo que basta ver os telejornais para perceber que «enquanto a cobiça das empresas é disfarçada, a dos funcionários vem apregoada nas manifestações por mais salários e reivindicações públicas de regalias», pelo que lícito se torna concluir – e JCN conclui – que «o desprendimento anda muito omisso».
Assim sendo, remata JCN, o que está em causa no slogan do PCP é algo que «todos sabem e alguns fingem ignorar» – título ao artigo – ou seja, que o PCP «deixou de ser um partido de utentes, que sabe bem que o público não é de todos, para passar a ser dominado pelos interesses das corporações que vivem de manter essa ilusão».
Voilá!
Deixando de lado a simpatia de JCN pelos privados; fazendo de conta que até nem sabemos qual o resultado da privatização de serviços públicos elementares como os transportes ou a saúde; dando de barato o facto de o Estado suportar, com o dinheiro dos contribuintes, as muito privadas alcavalas que sustentam a «dinâmica» empresarial, seja através dos chamados «incentivos» ou de outras benesses que não impedem a todo o momento o encerramento e deslocalização de empresas e o permanente crescimento do desemprego; passando por cima do facto de nesta falsa dicotomia público-privado haver cada vez menos possibilidade de escolha, porque para engordar o segundo se liquida o primeiro; deixando de parte tudo isto – e o mais que aqui não cabe por falta de espaço – temos que, para JCN, não só os empresários privados e os trabalhadores públicos se situam ao mesmo nível, equiparando-se portanto a sede de lucro com a reivindicação de direitos laborais, como ainda por cima o público sairá caro porque pago por todos os que pagam impostos e o privado sairá barato na medida em que só o cliente pagará a factura, pelo que o PCP não estará a defender os interesses dos utentes.
Comovente preocupação esta de JCN, que na sua douta sabedoria «esqueceu» o elementar, a saber, que o PCP não é um partido de utentes, é um partido de classe. Que incomoda, e muito, o capital, o que só mostra a justeza da sua política. Isto sim, é o que todos sabem e alguns fingem ignorar.