O túmulo

Henrique Custódio
Na quinta-feira passada o Público explicava uma operação científica inédita: a abertura do túmulo de D. Afonso Henriques para uma investigação antropológica que iria traçar os possíveis retratos científicos do fundador de Portugal. E pormenorizava o necessário, nomeadamente os objectivos concretos da investigação – reconstituir o rosto do rei, fazer a sua ficha médica através dos ossos, determinar a sua estatura efectiva, obter ADN para mais tarde comparar –, bem como os meandros burocráticos que a bióloga e antropóloga forense da Universidade de Coimbra, Eugénia Cunha, teve pacientemente que percorrer desde que, há mais de um ano, decidiu aproveitar a coincidência de uma operação de restauro programada para o túmulo do monarca, no Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, para organizar esta operação científica, que careceu igualmente da laboriosa procura de patrocínios assegurando os indispensáveis suportes financeiros.
Para espanto de tudo e de todos, logo no dia seguinte, sexta-feira, o mesmo Público titulava ao alto da primeira página que «Ministra da Cultura trava abertura do túmulo de D. Afonso Henriques».
Na verdade, quando já estava instalado no Mosteiro de Santa Cruz, à beira túmulo, todo o complexo equipamento necessário para a operação - incluindo uma máquina de laser tridimensional de alta precisão, única na Europa e vinda expressamente de Granada para fazer a reconstituição tridimensional de D. Afonso Henriques -, quando o monumento funerário já se encontrava meio aberto, eis que chega uma ordem directa da ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, ordenando o cancelamento imediato da operação.
Que justificara tão drástica decisão? A ministra concluíra que a operação não estava devidamente fundamentada? Falhara alguma indispensabilidade técnica para a sua concretização? Surgiram, à última hora, informações no gabinete da ministra que fundamentassem qualquer reserva a este trabalho?
Nada disso. A ministra travou toda a operação pelo simples facto de esta não lhe ter sido formalmente comunicada, não tendo encontrado melhor altura para reagir ao caso, assim tão irremediavelmente, que o próprio momento em que a operação se iniciava. Já decorre um inquérito interno também ordenado pela ministra, agora «para apurar responsabilidades». Entretanto, o presidente do IPPAR, Elíseo Summavielle, já lamentou o sucedido, reconhecendo que o seu Instituto sabe deste projecto «há mais de um ano» e que «o cancelamento à ultima hora deveu-se a erros internos de comunicação».
Acontece que esta operação foi formalmente pedida ao IPPAR em Julho de 2005, tendo o parecer positivo final surgido há duas semanas, mas com várias autorizações entretanto concedidas ao longo de 12 meses, para as várias etapas de preparação.
O primeiro ponto a relevar deste entremez é a flagrante desautorização que a ministra da Cultura aplicou aos serviços que de si dependem, pois anulou de uma penada todas as decisões por eles tomadas neste assunto, com autoridade delegada pela própria ministra.
O segundo ponto é a incrível rigidez autoritária evidenciada por esta governanta que, confrontada com o que entendeu ser uma espécie de «desrespeito», para tirar «desforço institucional» preferiu afogar uma complexa, fundamentada e relevante operação científica, que dar-lhe andamento enquanto pedia contas ao seu ministério por eventuais falhas no caso.
Está aqui, ao vivo e em corpo inteiro, o que vale o «Programa Simplex» do Governo contra a burocracia: um enorme arrazoado que nada significa para os próprios ministros.


Mais artigos de: Opinião

«Viva o capitalismo!»

Cavaco Silva fez no 25 de Abril um apelo à «sociedade civil» para entrar naquilo a que chama a «luta pela inclusão social». Ele próprio foi fazendo um «Roteiro pela Inclusão», que o que de mais revelador teve foi a difícil proeza de passar pelo Alentejo e não pisar o perigoso solo de nenhuma autarquia de maioria CDU. Na...

Cuba Livre

«Os bordéis florescem. A maioria das indústrias cresce à volta deles. Os funcionários do governo recebem gorjetas enquanto a polícia recolhe o dinheiro da protecção. Prostitutas podem ser vistas nas esquinas, vagueando pelas ruas ou debruçando-se das janelas. Um relatório estima que 11 500 prostitutas actuam em Havana....

Verdades quase verdades

Segundo o Diário de Notícias, tiveram início os primeiros «encontros preparatórios do Congresso do PS», que ocorrerão em todas as capitais de distrito, neste mês de Julho, e nos quais vão participar o primeiro-ministro e vários ministros.O das Obras Públicas, Mário Lino, deu um pontapé de saída, deslocando-se a Bragança....

Fusão e opacidade

Na lógica do desenvolvimento da política de direita deste governo e da ofensiva para a destruição do que resta de conquistas sociais e económicas de Abril, é inevitável o ataque a elementos essenciais da democracia política, com vista ao seu empobrecimento, à mutilação de direitos, liberdades e garantias e à reconfiguração do regime democrático constitucional - leis eleitorais, Justiça, segurança interna, superestrutura e aparelho do Estado -, conforme os interesses do grande capital.

O agravamento da tensão na Coreia

Tal como na Palestina, em Timor-Leste ou qualquer outra situação de aguda confrontação, também em relação à Coreia é fundamental contrariar a desinformação, com que se procura transformar as vítimas em agressores, sem um mínimo de enquadramento histórico. Só desse modo será possível derrotar a visão atomisada, caótica e...