Cuba Livre

Anabela Fino
«Os bordéis florescem. A maioria das indústrias cresce à volta deles. Os funcionários do governo recebem gorjetas enquanto a polícia recolhe o dinheiro da protecção. Prostitutas podem ser vistas nas esquinas, vagueando pelas ruas ou debruçando-se das janelas. Um relatório estima que 11 500 prostitutas actuam em Havana. Para além dos subúrbios da capital, afastado das máquinas de jogo, encontra-se um dos mais pobres e mais belos países do Mundo Ocidental.» As palavras são do escritor e historiador norte-americano David Detzer, aquando da sua visita a Havana em 1950.
Era o tempo de Fulgêncio Batista, que liderou de facto Cuba de 1933 a 1940 e foi oficialmente presidente do país de 1940 a 1944 e novamente de 1952 a 1959, como ditador apadrinhado pelos EUA.
Era o tempo em que 20 por cento da população mais rica arrecadava 58 por cento dos salários, enquanto os 20 por cento dos mais pobres recebia apenas dois por cento; em que 24 por cento da população activa não tinha ocupação; em que na ilha havia mais de um milhão de analfabetos.
Era o tempo em que os norte-americanos controlavam 40 por cento das terras e 60 por cento do comércio do açúcar cubano; em que Havana se alçou à categoria de porto internacional de drogas; em que os casinos floresciam como cogumelos; em que os patrões da mafia – Frank Costelo, Vito Genovese, Moe Dalitz e Santo Trafficante Jr. – se passeavam por Havana e os seus capangas ajustavam contas a tiros de metralhadora disparada de carros correndo a alta velocidade pelas ruas, tal qual nos mostram os filmes americanos.
A glória dessa era continua viva na memória da Casa Branca, cujo actual inquilino, George W. Bush, ainda não desistiu de voltar a ter a ilha no seu redil. Esta semana, a Comissão de Assistência a uma Cuba Livre (criada por Bush em 2003) apresentou um relatório recomendando que sejam canalizados 80 milhões de dólares para financiar a oposição ao regime de Fidel Castro. O financiamento, a ser atribuído entre 2007 e 2008, é fundamental para «preparar a mudança» no país, refere o relatório, que contém ainda um anexo secreto por alegadas razões de segurança nacional.
Bush fez saber que concorda com este «fundo pró-democrata», bem como com o endurecimento do embargo imposto contra Cuba há quase meio século para «manter a pressão económica sobre o regime a fim de limitar a sua capacidade de sobrevivência e de repressão dos cubanos». Esperam-se novos desenvolvimentos nesta saga que dá pelo nome de Cuba Livre.


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