As mulheres do nosso país

Margarida Botelho
Foi uma semana muito moderna: Sócrates ofereceu a todos uma caixa de correio electrónico para receber as contas, os jornais detalharam os crimes do serial killer de Santa Comba, a protagonista da telenovela infantil da SIC deu autógrafos durante 7 horas num centro comercial, as revistas encheram-se de namoradas de futebolistas a desfilar nos estádios da Alemanha.
Na mesma semana, houve uma mulher, operária têxtil numa vila beirã que escreveu uma carta, numa letra esguia e apressada:
«Ao Partido Comunista, Lisboa
Os meus cumprimentos.
Trabalho nas Confecções (…). Trabalhamos sábados, domingos, feriados, etc. Trabalhámos no dia 10 de Junho.
As horas são pagas sempre a 2,25 euros de noite, dia ou feriados.
As minhas colegas da lavandaria foram um domingo das 21h às 3 horas de segunda e às 8 horas da manhã já lá estavam novamente. Prometeram-lhes que lhes davam uma tarde livre e pagavam e agora, negam.
Nós mães temos dias que nem os filhos vemos.
Será isto normal?
Não me identifico com medo.
Obrigada por tudo»
Quem escreveu esta carta não a assinou, e mantemos a reserva do nome da empresa e do concelho, por respeito pela confiança que depositou no Partido que sabe que é o dela. Mas dizemos outras coisas, que são banais para dezenas de milhares de trabalhadores do país moderno dos Engenheiros Sócrates & Belmiro.
É uma fábrica que emprega largas dezenas de mulheres, muitas jovens, com um patrão que quer, pode, manda e ameaça com o desemprego numa zona em que não há empregos e em que tudo o que é público fecha. É uma fábrica em que as operárias torcem as batas azuis entre os dedos perante a pergunta, aparentemente simples: «vocês aqui saem do trabalho a que horas?». Não querem dizer, entreolham-se, sorriem aflitas, há uma mais afoita que diz «o melhor para nos apanharem é à entrada, às 8, que a saída não tem hora certa». Nesta ainda não sabemos, mas há outras fábricas próximas em que os patrões se dão ao luxo de obrigar a assinar papeis em que os trabalhadores declaram, por sua honra, que as horas extraordinárias que fazem, dias e noites a fio, são voluntárias e grátis.
Respondendo à pergunta: não, isto não é normal. O normal, justo e humano é ter salários dignos, direitos no trabalho, tempo para criar os filhos. É por essa justiça que luta o PCP. É essa a insuperável modernidade do projecto comunista.


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