O branqueamento do 28 de Maio

Carlos Gonçalves
Foi há oitenta anos «o golpe militar de 1926, que levou à instauração da ditadura fascista, preparado e executado pelas forças reaccionárias do grande capital e dos grandes agrários. O objectivo foi por o aparelho de Estado ao seu serviço, arredar do poder a pequena e a média burguesia, travar o movimento operário» - como sintetizou Álvaro Cunhal no Rumo à Vitória.
Nessa data teve início a consolidação da ditadura, superando conflitos intestinos, esmagando a tiro de canhão, em Fevereiro de 1927, um último contra golpe militar do Partido Republicano, e reprimindo, com brutal sanha de classe, a resistência do movimento operário, muito desorientado pelo anarquismo, apesar do avanço do PCP, ainda muito jovem.
Mas em 28 de Maio de 1926, de facto, começou o regime fascista que se prolongou por 48 anos de opressão e obscurantismo, exploração e atraso, prisão, tortura e assassínio, barbárie e guerra colonial, que a vida mostrou e o PCP definiu como «ditadura terrorista dos monopólios associados ao imperialismo estrangeiro e dos latifundiários».
Vem isto a propósito de duas páginas sobre o 28 de Maio no Público de domingo, em que resulta clara a tentativa de branquear o fascismo e de adulterar e ultrajar o 25 de Abril.
Com a prestável ajuda do «Professor» Fernando Rosas, fala-se do descrédito da República e das contradições dos homens de mão e «idiotas úteis» do golpe, mas diz-se quase nada sobre o que veio a resultar e escondem-se os interesses de classe de facto responsáveis.
E um tal «historiador» Rui Ramos - o provocador reaccionário de serviço - diz que a União Nacional era só «um partido de funcionários públicos e de notáveis de província» e valoriza as «diferenças» com o nazi-fascismo.
E completa a infâmia definindo o 28 de Maio como «comparável ao 25 de Abril», porque são ambos «não partidários» e os «sovietes dos tenentes» fascistas «formam uma base humana parecida com os capitães de Abril», como se o Programa do MFA e os militares progressistas não estivessem nas antípodas do projecto e dos «títeres» do 28 de Maio.
E finaliza atribuindo aos «seus» tenentes do fascismo o crédito de não ter havido por cá uma guerra civil como em Espanha, isto é, ainda bem que a ditadura veio em 28 de Maio, senão lá teria que ser mais tarde e mais à bruta.
O fascismo existiu. Afirmá-lo e explicar a sua natureza, a resistência operária e popular, a luta dos comunistas e o caminho percorrido até ao 25 de Abril, não é retórica, mas antes, cada vez mais - como se vê -, um imperativo democrático.


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