A «americanada»

Henrique Custódio
Empoleirado na maioria absoluta que lhe saiu em lotaria, José Sócrates parece apostado em passar à História como o coveiro do que resta do Portugal de Abril. Já quase não passa um dia em que não surja, de um dos seus aplicados ministérios, uma nova proposta, decisão ou diligência que invariavelmente restringe ou anula qualquer direito adquirido nestes 30 anos de construção democrática.
O campo de acção restauracionista – entendendo-se por «restauracionista» a reposição das relações sociais que o fascismo tutelou, genericamente assentes no domínio de uma minoria possidente sobre um País inteiro e desapossado de direitos sociais fundamentais - continua vasto e diversificado pois, apesar de já arrumadas pelos seus antecessores do PS e do PSD as questões centrais da devolução ao capital privado dos latifúndios, da economia, da banca, dos seguros, dos transportes, das comunicações e de tudo o que é estratégico na vida do País, continua de pé, porque ainda na mão do Estado, um conjunto apreciável de serviços em sectores fulcrais como a Saúde, o Ensino, a Segurança Social e até os Transportes, a par de um emaranhado de direitos e garantias de carácter laboral, social ou profissional que ainda por aí proliferam, o que desperta novas gulas aos senhores do dinheiro e, pelos vistos, segrega no Governo de José Sócrates uma alucinada compulsão de «servir». Os interesses do grande capital, é evidente. E isto em nome da «esquerda», imagine-se...
A última proposta engendrada pelo Governo de Sócrates veio do seu já famoso ministério da Educação e lança uma ideia tão peregrina como sintomática: introduzir, na carreira docente do ensino secundário a avaliação do desempenho dos professores e fazer depender essa avaliação da «apreciação» dos encarregados de educação.
Passando ao lado do facto de a maioria esmagadora dos pais não ter nem preparação, nem disponibilidade para apreciar o trabalho pedagógico, interessando-lhes apenas (os que se interessam...) que os filhos passem o ano, já viram o que seria fazer depender a carreira dos médicos das «apreciações» dos doentes, a dos advogados das «apreciações» dos réus, a dos juizes das «apreciações» dos sentenciados, a dos polícias das «apreciações» dos multados e por aí fora, na quase infinita interacção entre todos os profissionais e respectivos utentes, introduzindo esta peregrina ideia de fazer depender a avaliação profissional dos primeiros das apreciações subjectivas, aleatórias, parciais, impreparadas e, sobretudo, em causa própria dos segundos?
Por outro lado, o ministério da Educação e o Governo consideram os professores do secundário tão desqualificados profissionalmente que podem ser «avaliados» pelos palpites de quaisquer pais que, ainda por cima, nem fazem a mínima ideia do que acontece nas aulas? Como hoje acontece no Ensino, na Saúde ou onde quer que seja, o trabalho de qualquer profissional pode ser contestado, mas quem apura, avalia e decide sobre os factos são os seus pares e respectivas autoridades competentes. Porquê esta sanha incompreensível contra estes profissionais?
Na verdade, pretender aplicar tal regime aos professores do secundário apenas expõe um irreprimível desprezo pelas competências destes docentes e sobretudo, pelos seus mais elementares direitos profissionais e de cidadania, remetendo-os a uma ralé desqualificada.
A par disto, o Governo vai fechando escolas aos milhares, reduzindo o pessoal auxiliar, atulhando as turmas com largas dezenas de alunos, acabando com refeitórios e equipamentos básicos, obrigando os professores a serem psicólogos e assistentes sociais do vazadouro de disfunções familiares que o desemprego e a miséria atiram para as escolas.
Configura-se o «modelo americano» de Ensino, há tanto perseguido pela direita: escolas públicas desguarnecidas, professores socialmente desqualificados, ensino privado para quem tiver dinheiro. Eis a «filosofia» do Sócrates que nos calhou em azar...


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