Protagonismos
Marques Guedes, líder parlamentar do PSD, deu esta semana uma entrevista ao Diabo, disponibilidade que o decrépito hebdomedário da direita irreformável compensou devidamente com todo o espaço das centrais e grande chamada na primeira página. Aparentemente, para ouvir o que não esperava, pois o porta-voz parlamentar deste curioso agrupamento de direita que se alcunhou de «social-democrata» começou por fazer juz à alcunha e declarou que «Há um antiparlamentarismo primário em Portugal. A AR é um pouco um saco de boxe onde se despejam algumas das frustrações que existem em todas as sociedades», asserção que, descontada a rusticidade da formulação, parecia indicar que o homem se preparava para zurzir nos antiparlamentaristas furiosos que se organizaram «espontaneamente» por essa comunicação social fora, em bandos ecléticos, a pretexto da famosa «gazeta da Páscoa».
Mas não. Logo a seguir Marques Guedes afinou a pontaria e mostrou ao que vinha, que obviamente era igual ao que pensava. E ele pensa que «o Parlamento tem deputados a mais. Não é por acaso que os deputados dos partidos mais pequenos acabam por ter mais protagonismo».
Trata-se de um raciocínio devastador. Segundo Guedes, a coisa é simples e de uma lógica retumbante: primeiro, os partidos mais pequenos têm mais «protagonismo» exactamente porque são mais pequenos, decerto porque - sempre segundo Guedes –, agora, o que é grande vê-se pior que o pequeno e o pequeno vê-se melhor que o grande; segundo, para resolver este problema de visibilidade no Parlamento, o que há a fazer é reduzir os «pequenos», que se vêem de mais, e aumentar (ainda mais) os «grandes», para se verem melhor.
O que Marques Guedes não disse – embora certamente o não ignore - é que as dimensões dos «protagonismos» na Assembleia da República não se medem pelas graduações ópticas nem se corrigem com receita de óculos: avaliam-se, preto no branco, na contabilização dos actos concretos realizados por cada um dos deputados, por cada grupo parlamentar a que pertencem e por todos, no conjunto.
Ora, nessas contas – que são públicas e estão minuciosamente registadas na própria Assembleia da República – não será por acaso que o PSD (juntamente com o PS) é o recordista absoluto dos deputados com total ausência de «protagonismo», pelo simples facto de que nenhum deles, em toda a legislatura, protagonizou um único acto parlamentar para além das inevitáveis votações, ao ponto de ninguém lhes conhecer sequer a voz, pois jamais falaram em público.
Há uns bons 20 anos que é recorrente, entre o PSD e o PS, estão questão dos «deputados a mais» que, ainda por cima, estão «longe do eleitor» e «perto demais dos partidos», tudo para justificar uma grande «necessidade»: a reforma eleitoral que estilhace o método de Hondt, imponha os famosos círculos uninominais e consiga, finalmente, que as formações políticas maiores – o PS e o PSD – tenham para sempre garantida a vitória eleitoral, mesmo perdendo sistematica e esmagadoramente as eleições.
Assim, segundo Guedes e por razões exclusivamente optométricas, o PSD e o PS poderão finalmente espraiar-se por todo o hemiciclo de São Bento, na sossegada unanimidade de uma maioria absoluta eternamente assegurada. Regressará então o paraíso da União Nacional, mas sem o mau gosto da ditadura fascista, deus nos livre! que estamos em regime democrático devidamente consolidado por estes grandes democratas...
Mas não. Logo a seguir Marques Guedes afinou a pontaria e mostrou ao que vinha, que obviamente era igual ao que pensava. E ele pensa que «o Parlamento tem deputados a mais. Não é por acaso que os deputados dos partidos mais pequenos acabam por ter mais protagonismo».
Trata-se de um raciocínio devastador. Segundo Guedes, a coisa é simples e de uma lógica retumbante: primeiro, os partidos mais pequenos têm mais «protagonismo» exactamente porque são mais pequenos, decerto porque - sempre segundo Guedes –, agora, o que é grande vê-se pior que o pequeno e o pequeno vê-se melhor que o grande; segundo, para resolver este problema de visibilidade no Parlamento, o que há a fazer é reduzir os «pequenos», que se vêem de mais, e aumentar (ainda mais) os «grandes», para se verem melhor.
O que Marques Guedes não disse – embora certamente o não ignore - é que as dimensões dos «protagonismos» na Assembleia da República não se medem pelas graduações ópticas nem se corrigem com receita de óculos: avaliam-se, preto no branco, na contabilização dos actos concretos realizados por cada um dos deputados, por cada grupo parlamentar a que pertencem e por todos, no conjunto.
Ora, nessas contas – que são públicas e estão minuciosamente registadas na própria Assembleia da República – não será por acaso que o PSD (juntamente com o PS) é o recordista absoluto dos deputados com total ausência de «protagonismo», pelo simples facto de que nenhum deles, em toda a legislatura, protagonizou um único acto parlamentar para além das inevitáveis votações, ao ponto de ninguém lhes conhecer sequer a voz, pois jamais falaram em público.
Há uns bons 20 anos que é recorrente, entre o PSD e o PS, estão questão dos «deputados a mais» que, ainda por cima, estão «longe do eleitor» e «perto demais dos partidos», tudo para justificar uma grande «necessidade»: a reforma eleitoral que estilhace o método de Hondt, imponha os famosos círculos uninominais e consiga, finalmente, que as formações políticas maiores – o PS e o PSD – tenham para sempre garantida a vitória eleitoral, mesmo perdendo sistematica e esmagadoramente as eleições.
Assim, segundo Guedes e por razões exclusivamente optométricas, o PSD e o PS poderão finalmente espraiar-se por todo o hemiciclo de São Bento, na sossegada unanimidade de uma maioria absoluta eternamente assegurada. Regressará então o paraíso da União Nacional, mas sem o mau gosto da ditadura fascista, deus nos livre! que estamos em regime democrático devidamente consolidado por estes grandes democratas...