Infineon quer horário de 12 horas por dia

Lutar pelas 8 horas... em 2006

A Infineon Technologies – empresa de componentes informáticos e electrotécnicos situada em Vila do Conde – quer aumentar o horário de trabalho dos operários para 12 horas diárias, mantendo as 40 semanais e o mesmo salário. Os operários resistem.
Num café junto à fábrica, encontram-se Ricardo e Bruno, ambos operários da Infineon e membros do colectivo da JCP da fábrica, com João Tiago Silva, responsável pela Organização dos Jovens Trabalhadores do distrito do Porto da JCP, e Ricardo Freitas, responsável do sector das indústrias eléctricas. Desta vez o motivo do encontro não é uma reunião do colectivo, mas uma entrevista ao Avante!, mas os jovens comunistas aproveitam para trocar umas ideias sobre a situação na empresa.
A Infineon Technologies, sediada na zona indistrial de Vila do Conde, é uma das maiores empresas do distrito e emprega 1700 trabalhadores com uma média de idades de 25 anos. Muitos têm o 12.º ano, mas existem bastantes licenciados a trabalhar como operadores. Não existe comissão de trabalhadores ou sindical e a maioria dos funcionários tem contrato a prazo.
Em Novembro, a administração começou a distribuir inquéritos não anónimos para os trabalhadores indicarem se queriam continuar com 8 horas de trabalho diárias ou passar para 12, mantendo as 40 horas semanais e o mesmo salário. A pressão para que os operários optassem pelas 12 horas começou de imediato a sentir-se. Os operários que terminaram a formação e, quando chegaram às linhas, optaram pelas 8 horas foram dispensados. Nem chegaram a assinar o contrato de trabalho.
Nas áreas em que mais de cinquenta por cento dos trabalhadores optou pelas 12 horas, o novo horário será implementado a 1 de Abril. Algumas áreas novas começaram logo a laborar com as 12 horas.
Tanto Bruno como Ricardo optararam pelas 8 horas, por razões físicas e psicológicas, porque têm uma vida social fora da empresa que querem manter. Bruno, que vive em Vila Nova de Gaia, lembra que, «se trabalhar 12 horas e gastar duas horas em deslocações, chego a casa, durmo e vou logo trabalhar a seguir». Argumentam ainda com a perda da qualidade do trabalho e o aumento dos riscos de acidentes e doenças profissionais.
Muitos dos colegas que escolheram as 12 horas fizeram-nos com medo de perder o emprego. A maioria está a contrato a prazo. «Mesmo das colegas que vão passar para as 12 horas, a maioria não queria», diz Bruno. «O meu supervisor disse que sabia que havia pessoas a dizer aos colegas que as 12 horas não eram legais e avisou-nos para termos cuidado», conta Ricardo.
Quem opte pelas 8 horas muda de área de trabalho, «o que também funciona como forma de pressão», refere Bruno. «Muda completamente os hábitos de trabalho, muda de horários e de colegas. O objectivo é mudar toda a fábrica para as 12 horas, por isso quem mude de área por querer manter as 8 horas pode pensar que no futuro tem de ficar com as 12 horas à mesma e não vale a pena estar a mudar de área agora», acrescenta.

Vantagens... só para a empresa

A administração apresenta como vantagens da alteração do horário os trabalhadores se deslocarem menos para a empresa, porque trabalhariam dois dias e descansariam dois ou trabalhariam três e descansariam três. Por outro lado, diz que se ganhará tempo nas passagens de turno, pois com o horário de 12 horas só haverá uma passagem por dia. «Se calhar vai-se perder mais por causa do cansaço», comenta Bruno.
Outra vantagem está relacionada com as férias. Os operários das equipas de 8 horas têm obrigatoriamente férias fixas, ou seja, têm todos de gozar férias num determinado período, sem poder marcar mais nenhum dia durante o resto do ano. Os trabalhadores com 12 horas poderiam marcar os dias de férias à sua vontade. Isto é ilegal.
«Os trabalhadores não precisam de esmolas, têm direitos. Menos deslocações para a empresa? Só porque passam lá a vida. Para a administração, as 12 horas só têm vantagens: contribui para a produtividade da empresa, os operários passam lá metade da vida e contribuem para que os lucros do patrão sejam maiores. São vantagens muito grandes, mas são só para a empresa», afirma João Tiago.
Mas quais os verdadeiros objectivos da empresa com este novo horário de trabalho? Actualmente há cinco equipas, cada uma com 200 operários. Se a fábrica passar toda para 12 horas, passa a haver quatro. Uma das equipas é dissolvida e esses operários serão distribuídos pelas restantes equipas, mas haverá sempre trabalhadores a mais. «Por isso é que os inquéitos não são anónimos, é para despachar o pessoal que escolheu as 8 horas», avança Ricardo.

Reacção espontânea

Não é de hoje que os trabalhadores da Infineon têm motivos de queixa. Os problemas e limitações que sentem não são poucos, como recordam Bruno e Ricardo. As reuniões e as formações realizam-se fora do horário de trabalho e não são pagas. No horário das 8 horas, há dias de férias espalhados durante o ano nas folgas, ou seja, são folgas que são contadas como dias de férias. No Natal e no Ano Novo a fábrica fecha por ser feriado, mas esses dias são descontados nas férias dos funcionários. Na sala de refeições foram retiradas as cadeiras e os trabalhadores têm de comer de pé. Como nesse espaço as mesas são insuficientes, muitos vão almoçar ou lanchar para a rua.
Na semana passada, o supervisor de uma das equipas anunciou que o tempo total de pausa passaria de 70 para 30 minutos. Num período de 8 horas, este é tempo que os operários dispõe para almoçar e lanchar ou tomar o pequeno-almoço. Espontaneamente, os operários reagiram à medida e pararam cerca de uma hora em protesto. No fim, o supervisor recuou e o tempo de intervalo de 70 minutos manteve-se.
«Lutar tem consequências, mas não lutar também tem. Vale sempre a pena lutar, mas ainda é melhor quando se luta e se alcança os objectivos. Isto é um exemplo para a empresa toda», afirma João Tiago, destacando o aumento de consciência por parte dos trabalhadores.
«O trabalho de consciencialização que está a ser feito é permanente, porque não é de um dia para o outro que se constrói. São vários os casos de trabalhadores indignados que se dirigem à JCP directamente ou por mail, porque sabem que os comunistas são os únicos que se interessam. Já não é só uma questão de simpatia, mas é respeito e reconhecimento. Estamos ao lado deles na luta», acrescenta.

O colectivo dos novos comunistas

O colectivo da JCP na Infineon tem uma história de escassas semanas. O primeiro militante na empresa foi Bruno, inscrito em Vila Nova de Gaia. Seguiram-lhe outros, estes recrutados no seio da fábrica. Em três meses, juntaram-se oito novos camaradas. «Passar de um para dois demorou, mas depois recrutou-se rapidamente», diz João Tiago Silva.
«Como os vínculos de trabalho são precários, tem de se trabalhar um bocado na clandestinidade», refere Ricardo Freitas, responsável da JCP pelo sector das indústrias eléctricas do distrito do Porto. O receio das consequências da actividade política é real e tem razão de ser para estes jovens, mas não os faz baixar os braços.
«Ser militante da JCP é isto, é lutar pelos direitos dos trabalhadores. Não pode ser como o patronato quer. Não é fácil ser da JCP, mas conquistar as coisas difíceis dá muito mais prazer e nós estamos aqui para lutar», afirma Bruno. Ricardo concorda: «Quero lutar por todos e pela igualdade de direitos. Acho que é assim que o Partido funciona. Quem tem dinheiro é que manda em nós e não devia ser assim. Uma pessoa sozinha não pode fazer nada. Só mesmo com um colectivo.» Ricardo recorda o que o levou a aderir à JCP, em Janeiro: «A luta de todos os comunistas pela liberdade e pelos direitos do ser humano.»
Este é um colectivo em construção que tem como linha de trabalho ganhar novos colegas, dentro da própria empresa. As reuniões realizam-se em cafés ou nos centros de trabalho do PCP da região, mas não são fáceis de organizar devido aos diferentes turnos dos militantes. A participação dos deputados Miguel Tiago Rosado e Jorge Machado numa distribuição de panfletos à porta da empresa – que ocorreu em Janeiro – foi uma das decisões do colectivo.
Para Ricardo Freitas, «é muito importante ter um colectivo da JCP na Infineon, especialmente não havendo nenhum tipo de representação dos trabalhadores ou delegados sindicais que os defenda dentro da empresa. As pessoas revoltam-se com esta situação e começam a ter consciência política, consciência de classe e necessidade de lutar pelos seus direitos. Mas não podemos pensar que ganhámos a medalha e que está tudo feito. É preciso que não se perca este colectivo e que os novos militantes tenham intervenção», defende.
Na linha de intervenção da JCP, a Infineon foi considerada como prioritária pela grande concentração de mão-de-obra juvenil. «O nosso património de intervenção não surgiu de um dia para o outro. Tínhamos vindo cá com documentos gerais e depois com documentos específicos sobre a empresa. Foi aí que conseguimos furar e ter uma intervenção mais consequente. A partir dos contactos feitos na altura, conhecemos outro camarada que procurou chamar amigos que foram trazendo outros colegas», recorda João Tiago.
Como refere o dirigente, a preparação do 8.º Congresso da JCP é a altura ideal «para que o colectivo aumente a discussão e a militância, para que assuma tarefas e os camaradas tenham mais responsabilidades». A discussão do projecto de resolução política está já agendada pelo colectivo.

Onde está a crise?

«As políticas laborais do Governo e os ataques aos trabalhadores não ficam sem resposta. O medo e a precariedade são grandes, mas há exemplos de luta, de coragem e de grande dignidade, como é o caso dos camaradas do colectivo da JCP na Infineon», afirma João Tiago Silva.
Bruno e Ricardo antevêem um futuro preocupante, se as políticas de direita não forem invertidas. «O Governo devia fazer alguma coisa pelos trabalhadores. Não é só vir para cá uma empresa multinacional. Os trabalhadores não podem ficar sujeitos a qualquer tipo de trabalho. Não são as pessoas do Governo nem da direcção da empresa que vão trabalhar 12 horas», comenta Ricardo. «Esta empresa já recebeu muito dinheiro do Estado e não trata bem os trabalhadores», acrescenta Bruno.
Os trabalhadores são apontados pelos governantes como sendo responsáveis pela crise económica, mas Ricardo tem uma outra opinião: «A crise está na mão dos patrões e do Governo.» Já Ricardo Freitas, dirigente da JCP, defende que «a crise é uma ideia que está a ser criada para engordar a grande burguesia à custa dos trabalhadores». E apresenta razões: «Ao mesmo tempo que assistimos aos ataques aos direitos e aos salários dos trabalhadores, a taxas elevadas de desemprego e à deslocalização de empresas, vemos grandes grupos económicos a terem lucros formidáveis. Onde é que está, então, a crise?»
João Tiago Silva acusa o Governo do PS de «permitir ao patronato coisas que a própria direita não se atrevia por não ter sustentação social. Dá a ideia que os trabalhadores são preguiçosos, que o problema da produtividade surge porque as pessoas não querem trabalhar, mas a ideia que os trabalhadores são os responsáveis pela crise é uma falsidade. Tenta passar a batata quente dos verdadeiros responsáveis pela destruição do sector produtivo e pela deslocalização das empresas. A culpa dos problemas dos trabalhadores não está na mão dos trabalhadores. Antes estivesse, porque assim não teríamos metade dos problemas que temos», argumenta.
Para o dirigente comunista, o Governo não é incompetente, bem pelo contrário: «É competente para se pôr ao lado do patronato e para defender os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros, a classe que defende. Os trabalhadores não são preguiçosos, querem é direitos para trabalhar em condições.»



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