Os «essenciais»

Henrique Custódio
As autoridades de Saúde, juntamente com um grupo de peritos, fizeram um «levantamento» dos portugueses considerados «essenciais» para «manter o tecido social a funcionar» durante a fase mais aguda de uma eventual (e tida como inevitável) pandemia provocada por um novo vírus da famosa «gripe das aves». Esses portugueses «essenciais» foram mesmo quantificados – serão 100 mil – e devidamente catalogados, neles se incluindo «profissionais de saúde e dos serviços de emergência, trabalhadores de empresas de abastecimento de água, gás, electricidade e distribuidores de produtos alimentares».
Não foram mencionados governantes em exercício, empresariado em geral, funcionários de topo na administração pública, juristas, juizes, polícias e qualquer cidadão detentor, titular ou familiar de alguma parcela de poder porque, obviamente, constituirá um dado adquirido na actual governança portuguesa que toda essa gente é tão «essencial» ao País que nem precisa de ser incluída em qualquer lista de exclusividade: terá certamente acesso garantido, antecipado e anónimo ao produto em questão...
Quem se encarregou de anunciar esta fantástica medida foi a subdirectora-geral da Saúde, Graça Freitas de sua graça, que pormenorizou, com a mesma eficiência burocrática, que o «pó» (pois trata-se de um «tratamento em pó») «chegará [a Portugal] em Junho, juntamente com as doses de medicamento antiviral destinado a garantir tratamento a 25 por cento da população» (o que, já agora, atinge apenas dois milhões e meio de pessoas).
Há 15 ou 20 anos (para não falarmos dos tempos imediatos ao 25 de Abril), quando ainda estava fresca a memória do fascismo português e, sobretudo, quando o mundo ainda tinha por adquiridos alguns princípios, como o primado do colectivo ou os direitos de quem trabalha - que a existência da União Soviética e a construção do socialismo haviam imposto e garantido, mesmo que ninguém reparasse nisso -, há 15 ou 20 anos, dizíamos, nenhum responsável governamental se atreveria a pensar tal proposta, quanto mais a apresentá-la, sob pena de ser adequadamente acusado de fascista.
Era, na altura, uma evidência garantida pelos factos que, na História recente da Humanidade, apenas o fascismo, como expressão exacerbada do capitalismo, se atrevera a praticar a discriminação social como política de Estado invocando não importa o quê, fosse a «raça» ou a «saúde», a «cultura» ou a «sobrevivência».
No capitalismo «normal», lá onde a democracia burguesa se arroga da «perfeição social possível», de que os EUA são paradigma e actual farol mundial, o máximo a que (ainda) se costuma chegar em matéria de discriminação em larga escala é a nível da ficção cinematográfica, onde as «ameaças alienígenas» catastroficamente acantonam elites em resguardos exclusivos ou, na paranóia dos jogos de guerra, com a construção efectiva de abrigos nucleares tão caros como secretos onde se «refugiará» a nata do poder, num «acaso» que a agressividade capitalista auto-alimenta.
Talvez por isso é que o Governo de José Sócrates – que, necessariamente, teve de aprovar este «levantamento de essenciais» - esqueceu a sua obsessão inaugurativa e não arriscou assumir em primeira voz o anúncio desta originalidade, chutando a diligência para uma funcionária, após delegar nas «autoridades de Saúde» e nos «peritos» (convenientemente sem rosto) o apuramento dos «100 mil essenciais».
Todavia, não conseguiu esconder o verdadeiramente essencial: que, para estes «socialistas» da maioria absoluta, a maioria dos cidadãos é tão secundária, que o investimento na defesa da sua saúde e interesses deve servir apenas a minoria dos «essenciais»...


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