Os torcionários e os seus cúmplices

Jorge Cordeiro
A Casa Branca deu-nos a saber, a propósito de um relatório da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas que se pronunciou pelo encerramento do campo de detenção do Guantanamo, o que de antemão se sabia: que não vão acatar a recomendação das Nações Unidas. Em boa verdade não se vê nisto nenhuma novidade. Para a Administração norte-americana as Nações Unidas existem para acatar as recomendações dos Estados Unidos e não o inverso. É isso que as sucessivas atitudes de unilateralismo e de impune afrontamento ao direito internacional por parte da Casa Branca têm provado. De há muito que nas Nações Unidas há dois pesos, duas medidas: uma para as resoluções aprovadas, ditada ou impostas pelos Estados Unidos, por mais injustas e ultrajantes que sejam, destinadas a serem executadas, de preferência à força para que não restem dúvida sobre a «autoridade» de quem as assume; outra para aquelas, bem raras por razões óbvias, que não contando com o apoio dos Estados Unidos e que atingem a arbitrariedade dos seus «fiéis aliados», se destinam a não serem cumpridas. Não se conhecendo ainda a reacção das Nações Unidas à arrogante resposta da Administração Bush não é entretanto de esperar nada de sério. Em rigor quem ali manda são os Estados Unidos como o testemunha o passado recente nos Balcãs ou no Iraque.
De tudo isto sobrará para reflexão a natureza agressiva da política norte-americana, o confirmado desrespeito pelos direitos humanos, a incontida violência de um sistema de produção que na sua dimensão imperialista faz disso condição de perpetuação. Guantanamo é apenas uma expressão, em recinto fechado, daquilo que os Estados Unidos praticam um pouco por todo o globo. O cinismo norte americano vai ao ponto de, em contestação das conclusões daquele relatório, alegar que os detidos em Guantanamo não podem invocar a Constituição dos Estados Unidos por aquele centro de detenção não estar em território norte-americano, o que talvez ajude a perceber as notícias sobre a exportação de prisioneiros para países terceiros para aí serem torturados ou estropiados. Depois de se ouvir Condolezza Rice justificar a tortura como elemento integrante da política de defesa dos Estados Unidos melhor se compreenderá porque fazem da eliminação de países e da erradicação à força de bombas de cidades e comunidades inteiras, prática corrente e componente essencial da sua política externa.
O que poderá parecer estranho, sem que o seja de facto, é que as chamadas democracias ocidentais sempre tão prontas a falar de direitos humanos ou de liberdade de expressão, descontadas que sejam umas piedosas e reconfortantes resoluções aprovadas numa ou noutra instituição, estejam sempre prontas para voltar a alinhar com novas aventuras belicistas dos Estados Unidos.


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