Carnaval

Leandro Martins
Deve ser a aproximação do Carnaval que nos faz ver as coisas com uma frivolidade que os acontecimentos não aconselham. A gente ri-se porque de facto há coisas ridículas que nos impõem a partir do poder, embora os resultados acabem por ser trágicos. E os exemplos multiplicam-se e mostram que a tendência não é apenas uma fugaz passagem de folia, mas uma persistente vertigem para o absurdo. Absurdo dizemos nós, porque, para quem manda e quem pode, todas as medidas que o Governo toma e o Presidente promulga – e o outro que aí vem também promulgará com gosto – fazem sentido e têm toda a lógica do lucro.
Não estamos a falar dos aumentos de preços, descansem, porque aí já ninguém se ri e a maioria protesta. Nem dos salários que não aumentam, porque afinal isso nunca teve graça nenhuma. Nem dos despedimentos. Nem do fecho de escolas. Nem da degradação dos meios para promover a saúde e combater a doença. Nada disso.
Falamos, por exemplo, de uma lei das rendas, que a maioria – dos inquilinos – teme. E dos famigerados subsídios a atribuir aos idosos mais carentes, que ficam obrigados a um processo burocrático tal que acaba por envolver o «rendimento familiar» de filhos e lançaria os idosos numa barafunda de papelada ao fim da qual apostamos, lhes não sobraria vida para receber subsídio – se alguma vez os tostões fossem atribuídos!
O Presidente cessante, que generosamente distribui medalhas e comendas a muita e desvairada gente, determinado a borrar a pintura até ao fim, lá promulgou o iníquo diploma.
Falamos, ainda, da medida anunciada pelo Governo que, como titula um matutino da capital, «faz subir os salários» aos trabalhadores. Trata-se de uma pirueta carnavalesca, certamente, mas o executivo de Sócrates lá terá as suas razões para brincar assim com a gente. A coisa funciona assim. As empresas são «convidadas» a processar menos retenções na fonte aos salários pagos, o que faz com que os trabalhadores cheguem ao fim do mês com mais alguns euros no bolso. Euros que o Estado os «convidará» a repor no final do ano, com um riso ladino. «Com que então não sabiam que era uma brincadeira?», perguntará o Fisco.
Não se esqueça o Governo e quem o ajuda que o Carnaval acaba numa Quarta-feira de Cinzas.


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