Um jogo perigoso…

Ângelo Alves
A chamada «Crise dos Car­toons», o momento em que se desenvolve, a sua origem e o modo como está a ser tratada, quer pelo poder político, quer pelos media, suscita muitas interrogações e acima de tudo preocupações.

A Dinamarca, governada por uma coligação de direita/extrema-direita participa como é sabido na ocupação do Iraque. Tem, na sua população, uma comunidade de apenas 2% de muçulmanos. No entanto, são conhecidas as leis de imigração e de asilo altamente discriminatórias desta comunidade assim como discursos de carácter xenófobo de forças da coligação governamental. As declarações da Rainha Margareth II(1) são elucidativas da natureza do poder político aos quais está ligado o pequeno jornal dinamarquês «Jyllands-Posten» por onde tudo começou: «Es­tamos a ser de­sa­fi­ados pelo Islão nestes anos – quer a nível global quer local. (..) Temos que mos­trar a nossa opo­sição ao Islão e temos que, às vezes, correr o risco de nos serem co­lo­cados ró­tulos menos sim­pá­ticos…». Repare-se que nem se fala em «extremistas» ou «fundamentalistas». A oposição é a uma determinada religião, enquanto tal. O espírito das Cruzadas medievais regressa em força à Europa do Século XXI.

Os Car­toons foram publicados pela primeira vez em Setembro de 2005 e só depois de 5 meses sem reacções violentas e de uma «onda» de reproduções em cerca de 20 jornais europeus é que a «crise» estalou, exactamente no momento em que a pressão imperialista sobre Síria, Irão e Palestina estão «ao rubro».
Relembrando que foi a direcção do jornal dinamarquês quem solicitou a produção dos Car­toons sobre o Profeta Maomé e que a mesma recusou publicar em Abril de 2003 desenhos sobre Jesus Cristo porque «po­de­riam pro­vocar pro­testos», é fácil concluir da dualidade de critérios da linha editorial do referido jornal e do conhecimento prévio que tinha dos efeitos da sua decisão. Acrescente-se a isso o seu óbvio conhecimento sobre a situação internacional, marcada pela preparação de uma nova agressão imperialista no Médio Oriente; acrescente-se o carácter de «campanha» que a publicação dos desenhos assumiu e não é difícil concluir que se tratou de uma provocação intencional que poderá não estar desligada das dificuldades do imperialismo em justificar novas aventuras militaristas. O que está em causa não é, pois, a liberdade de imprensa, mas uma enorme operação política, e em política há que identificar responsáveis pelos acontecimentos, que estão sujeitos à crítica, por mais que isso doa a quem faz da suposta «liberdade de imprensa e de expressão» uma das principais armas políticas de opressão. Aliás, é curioso ver algumas figuras ditas «de esquerda» a saírem de «peito feito» numa defesa acrítica da «liberdade de imprensa», esquecendo-se de quem são e o que visam os que estão por detrás desta «crise». Mesmo em matéria de liberdade de expressão, as suas acções vão no sentido de a restringir ainda mais.

As «reacções muçulmanas» e a sua divulgação no «ocidente» são também políticas. A «imprensa livre» ocidental escolheu quase unanimemente dar destaque a acções extremistas ocorridas em determinados países (Síria, Irão, Líbano, Palestina) quase ignorando as numerosas manifestações pacíficas um pouco por toda a parte. Os países mais focados são exactamente os países que são hoje alvo das ameaças e ingerências imperialistas.
É evidente que forças obscurantistas ligadas à extrema-direita (árabe, israelita, americana e europeia) tentam explorar a provocação lançada pela direita europeia, instrumentalizando as massas para ganhar espaço político, fazendo assim o jogo da falsa «guerra de civilizações» com que o imperialismo pretende justificar as suas guerras. A onda de revolta suscitada pelas caricaturas demonstra como é profunda a acumulação de humilhações resultantes da política imperialista de agressão no Médio Oriente. Mas a questão chave para compreender os acontecimentos destes dias é outra: muito antes da actual «guerra dos car­toons», o imperialismo decidira já voltar a atacar no Médio Oriente. Quando Bush colocou o Irão no «Eixo do Mal», não havia car­toons, nem Amhadinejad era Presidente. A guerra contra o Iraque ficou marcada pela ficção das «armas de destruição massiva». Está nas mãos dos povos impedir que as próximas guerras do imperialismo sejam marcadas pela ficção dos «car­toons».

(1) «We must show our opposition to Islam, says Danish queen» - News.telegraph – 15 Abril 2005


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