Começar do nada

Vasco Cardoso
Diz o próprio que gosta de começar a trabalhar ainda antes 8 da manhã, que não tem férias, trabalha ao fim-de-semana se necessário for, vive num apartamento sem luxos e que «começou do nada». Há uns tempos, após lhe ter sido solicitado prestar alguns esclarecimentos na Assembleia da República afirmou que apenas iria ao parlamento se os deputados estivessem lá, logo pelas 8:00, caso contrário se iria embora...acabou por não ir. O Sr. Engenheiro é promovido pela comunicação social como o mais «dinâmico» empresário português, dono de uma superior inteligência e «espírito empreendedor» - seja lá o que isso for. Passeia-se pelas Universidades onde explica como se fazem os negócios e é apresentado como um exemplo de vida, de quando em vez concede uma entrevista onde revela pela enésima vez que foi «a pulso» que construiu a sua fortuna.
O homem mais rico do nosso país, tem investimentos na distribuição, na área financeira, no imobiliário, nas telecomunicações, na indústria e até na comunicação social onde se dá ao luxo de ter um jornal – o Público – que dá um milhão de contos de prejuízo por ano (o que para um homem de negócios seria pouco inteligente não fossem outros objectivos que todos conhecemos). Sobre os destinos políticos do país o Sr. Engenheiro é uma autoridade, disse há dias que Cavaco seria um bom presidente para um bom primeiro-ministro (Sócrates) e assim aconteceu. Um «cidadão» exemplar, que paga os seus impostos e que todos os Governos ouvem com especial atenção.
Belmiro de Azevedo, o patrão do Grupo SONAE, não está satisfeito e quer mais, quer adquirir o Grupo Portugal Telecom, a maior empresa portuguesa que há bem pouco tempo era uma empresa pública, um «peso» para o estado. O Governo finge fazer-se difícil mas seguramente prepara-se para viabilizar este negócio daqui a algumas semanas.
Na semana anterior, tínhamos assistido à triste overdose mediática em torno de Bill Gates, também este começou do zero e ao que parece trabalha mais do que o Belmiro (deve ser por isso que é ainda mais rico). O culto prestado a estes senhores, melhor ainda, o culto que estes senhores promovem em torno de si e da sua classe, persegue o objectivo da legitimação não só das fabulosas fortunas que acumularam à custa da miséria de milhões, como abre caminho para a aceitação generalizada das profundas desigualdades que se agravam todos os dias.
O que seria de Belmiro (ou Bill Gates), sem as machadadas que deram nas conquistas de Abril, sem os contratos a prazo, sem o actual código do trabalho, sem as privatizações, sem os paraísos fiscais, sem a contenção salarial, sem os fundos comunitários, sem os dinheiros a fundo perdido, sem a destruição do aparelho produtivo, sem os benefícios à especulação, sem a vassalagem do poder político, sem PSD, CDS e PS, sem Sócrates e sem Cavaco....bem poderiam trabalhar de sol a sol, não ter férias, trabalhar ao fim-de-semana e terem começado do nada, porque no nada continuariam, como milhões de Portugueses.


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