E vice-versa

José Casanova
Ribeiro e Castro, presidente do CDS, achou por bem, vejam bem!, dar lições de democracia à esquerda. Começou por proclamar a sensacional des­co­berta de que «a origem do terrorismo está na esquerda» - proclamação que cheira a ou seja: o presidente de um partido que é o mais próximo herdeiro ideológico do partido fascista de Salazar e Caetano; o presidente de um partido que, no período pós 25 de Abril, esteve ligado a actos de terrorismo bombista, com assaltos e incêndios de locais de organizações de esquerda (especialmente centros de trabalho do PCP), provocando mortos e feridos - vem a público, acusar de esquerda de terrorista.
Mas a salazarenta figura não se ficou por aí: inspirado, atribuiu à esquerda a «responsabilidade nos grandes males do mundo», por exemplo «o cortejo de miséria na África contemporânea» - certamente, tendo na memória os muitos muito ricos feitos à custa do cor­tejo de mi­séria na África e em todos os restantes continentes, esses que são, de facto, os responsáveis pela miséria de centenas de milhões de pessoas, pelos seis milhões de crianças que morrem de fome todos os anos em países dominados pelo sistema capitalista, por esse sistema de que Ribeiro e Castro é ardente defensor (seja qual for a modalidade por ele adoptada, a começar pela de di­ta­dura ter­ro­rista do ca­pital).
A arcaica personagem, afirmou, ainda, que Che Guevara foi «um dos grandes assassinos do final do século XX» - afirmação que, para além de o cobrir de ridículo com riscos de sufoco, desnuda o conteúdo cavernícola do seu pensamento.
Já agora, e porque estamos em pré-campanha eleitoral, vale a pena lembrar que o autor das reaccionarices acima citadas, é fervoroso apoiante do candidato Cavaco Silva. E também vale a pena lembrar que só podia ser assim, isto é, que Cavaco Silva é, dos candidatos presentes, o único que Ribeiro e Castro podia apoiar. É verdade: quem pensa e diz o que Ribeiro e Castro pensa e diz, só pode apoiar Cavaco Silva. Estão bem um para o outro, completam-se e complementam-se, habitam cada um a sua divisão da casa-comum-da-direita-saudosa-do-antigamente, o apoiante é digno do apoiado, ou dito por menos palavras: trata-se do apoiante certo para o candidato certo – e vice versa.


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