ATOARDAS

Jorge Cadima

Ri­beiro e Castro não é ig­no­rante, nem tolo. É apenas re­ac­ci­o­nário

Um disparate nunca vem só. E o dirigente do CDS-PP, Ribeiro e Castro, voltou à carga. Primeiro, afirmou que «o Sé­culo XX foi do­mi­nado pelo so­ci­a­lismo e muitos dos males ac­tuais do mundo e da nossa so­ci­e­dade são a pe­sada fac­tura desses tempos; o úl­timo dos fi­lhos desse tempo é o ter­ro­rismo(» (Lusa, 18.12.05). Depois acrescentou que «o ter­ro­rismo con­tem­po­râneo tem origem numa de­riva to­ta­li­tária do pen­sa­mento mar­xista-le­ni­nista» e que Che Guevara foi «um dos grandes as­sas­sinos do final do Sé­culo XX» (Diário de Notícias, 22.12.05).

O delírio é grande, e o espaço desta coluna curto. A oposição frontal ao terrorismo pelo PCP é, desde a sua fundação, indiscutível. O mesmo não se pode dizer do Partido de Ribeiro e Castro, como se viu nomeadamente no verão quente de 75. Deixemos a «fontes insuspeitas» os esclarecimentos sobre «a origem do terrorismo contemporâneo»: «O con­ceito de jihad, ou guerra santa, quase que tinha dei­xado de existir no mundo mu­çul­mano após o Sé­culo X, até que foi re­a­vi­vado, com o apoio da Amé­rica, para ali­mentar um mo­vi­mento pan-is­lâ­mico in­ter­na­ci­onal contra a in­vasão so­vié­tica do Afe­ga­nistão, em 1979. Nos dez anos se­guintes, a CIA e os ser­viços se­cretos sau­ditas ca­na­li­zaram mi­lhares de mi­lhões de dó­lares em armas e mu­ni­ções [...] aos muitos grupos mu­jahe­dines que com­ba­tiam no Afe­ga­nistão» (The Eco­no­mist, 15.9.01). Uma das «tác­ticas fa­vo­ritas» desses grupos mujahedines consistia em «tor­turar as ví­timas [...] co­me­çando por lhes cortar o nariz, as ore­lhas e os ge­ni­tais e de­pois re­mo­vendo, uma após outra, su­ces­sivas ca­madas de pele» (Washington Post, 11.5.79, citado no livro Kil­ling Hope the William Blum). Como todos os «democratas ocidentais», o CDS estava do lado do terrorismo contemporâneo dos grandes criminosos do final do Século XX.

O Afeganistão não foi caso isolado. Em Itália nos anos 60 e 70, em África e na América Central nos anos 80, na Jugoslávia nos anos 90 (entre outros) o terrorismo financiado e armado pelo imperialismo foi uma das principais armas de subversão e de combate contra o socialismo e os povos. É eloquente o apoio do CDS ao terrorista Jonas Savimbi: ainda o mês passado manifestou «o seu pro­testo e in­dig­nação» pelas de­cla­ra­ções de Cra­vinho [...] ao Jornal Ex­presso, em que des­creve Jonas Sa­vimbi, líder his­tó­rico da [...] UNITA como «um monstro» e um «Hi­tler afri­cano» (notícia Lusa, no site do CDS-PP na Internet, 10.11.05). O que acharão deste protesto os familiares das milhares de vítimas de Savimbi – incluíndo as dos massacres terroristas no Norte de Angola, em Março de 1961, cometidos pela UPA/FNLA na qual Savimbi era então militante responsável?

Ribeiro e Castro não é ignorante, nem tolo. É apenas reaccionário. Segue o exemplo das classes dominantes de todos os tempos e todas as latitudes. Que sempre absolvem os seus próprios crimes, por maiores que sejam, e vêem «terrorismo» na resistência dos povos, dos explorados e oprimidos. Se a palavra já existia no tempo do Império Romano, terá seguramente sido usada para descrever a revolta dos escravos de Espártaco ou os primeiros cristãos. A Ribeiro e Castro o que é de César. Mas a atoarda do dirigente CDS-PP é sinal dos tempos. O verniz imposto às classes dominantes pela luta dos povos durante o Século XX está cada vez mais estalado. E por debaixo do verniz estalado é visível a verdadeira essência do capitalismo do nosso tempo: a guerra e o desmantelamento das conquistas sociais; a tortura e o aumento desenfreado da exploração e da miséria; os raptos e prisões arbitrárias e as multas de um milhão de dólares por dia aos trabalhadores em greve no Metro de Nova Iorque; o napalm e o fósforo branco e a tentativa de criminalizar quem defende os interesses dos povos. No Século passado, o capitalismo em profunda crise gerou o monstro fascista para afirmar o seu poder de classe. Foi a maior tragédia da Humanidade no Século XX, e ceifou milhões de vidas. O capitalismo agressivo e parasitário do Século XXI vai por rumos análogos. É deste pântano pútrido que brotam os Ribeiro e Castro deste mundo.


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